Arqueologia





DISCIPLINA: ARQUEOLOGIA BÍBLICA
CONCEITO GERAL DE ARQUEOLOGIA

Introdução

Do mundo civilizado no antigo Oriente, exceto a Bíblia, não ficou conservado nenhum monumento literário. A queda dos antigos impérios da Babilônia, Assíria, Egito e Pérsia, levou ao desaparecimento dos velhos povos orientais, excluindo os judeus.
Durante quase dois mil anos, eram os livros bíblicos e as obras dos escritores greco-romanos, a única fonte de informação sobre o lendário mundo oriental antigo. Somente as pesquisas arqueológicas dos últimos cem anos chegaram a escavar as soterradas ruínas das antigas regiões civilizadas perto do Eufrates, Tigre e Nilo, e a despertar para a vida as silhuetas de uma época culta de aproximadamente quatro mil anos. A pá dos investigadores descobriu para nós não só cidades e palácios antigos, como também a vida espiritual daqueles povos, onde ficava o berço da nossa cultura contemporânea; as suas criações literárias e artísticas e a sua concepção religiosa do mundo. Graças a isso, a imagem que temos hoje da vida do antigo Oriente é inteiramente outra, e o nosso horizonte histórico ampliou-se grandemente, no tempo e no espaço.
As relações econômicas, políticas e espirituais entre Israel e os povos circunvizinhos já se percebem muitas vezes na literatura bíblica, onde encontramos freqüentemente os nomes da Babilônia, Assíria, Pérsia e outros. Mas os materiais arqueológicos, recentemente descobertos, habilitam-nos a apurar com mais precisão a natureza dessas relações, e demonstram-nos as influências dos grandes centros civilizados da Ásia Menor e do Egito sobre a cultura material e espiritual da Síria e da Palestina. Outrossim, oferecem-nos os materiais arqueológicos a possibilidade de aquilatar mais ou menos objetivamente a originalidade e o caráter exclusivo do desenvolvimento espiritual e social-político de Israel.
É preciso, no entanto, ter em mente que o nosso material está longe ainda de ser completo, e que apenas dispomos de fragmentos do patrimônio cultural relativamente rico do mundo antigo. Isto, aliás, também se aplica a Israel, onde a Bíblia freqüentemente só fornece notícias isoladas e por vezes apenas alusões sobre acontecimentos e fenômenos de real importância na vida judaica.
De um modo geral podemos, entretanto, afirmar, baseados nos materiais existentes, que: no que diz respeito a civilização material, eram os israelitas, na sua maior parte, discípulos dos seus mais velhos e adiantados vizinhos; na vida espiritual, porém, revelaram excepcional independência e uma originalidade criadora.    

1-EVIDÊNCIAS CONCRETAS DAS ESCRITURAS

Muitas pessoas após ter lido ou ouvido falar nas Escrituras Bíblicas, já questionaram e questionam a veracidade dos acontecimentos. A arqueologia bíblica, um precioso estudo que vem sendo explorado há poucos séculos, tem dado fim a estes questionamentos que os cépticos opõem aos fatos históricos dos livros bíblicos. Você, leitor, encontrará nesta página muitos estudos arqueológicos, os quais provam a autenticidade histórica dos livros da Bíblia.

1.1. E a Bíblia tinha razão

O fato de um homem que não é teólogo escrever um livro sobre a Bíblia é bastante incomum para que se espere dele um esclarecimento sobre a razão por que se dedicou a essa matéria.
As inscrições cuneiformes encontradas em Mari, no médio Eufrates, continham nomes bíblicos que situaram subitamente num período histórico as narrativas sobre os patriarcas, até então tomadas por simples “histórias piedosas”. Em Ugarit, na costa do Mediterrâneo, foram descobertos pela primeira vez os testemunhos do culto cananeu de Baal. O acaso quis ainda que no mesmo ano se encontrasse numa caverna, próximo ao mar Morto, um rolo do livro do profeta Isaías (Manuscritos do Mar Morto), considerado de data anterior a Cristo. Essas notícias sensacionais – permita-se-me o uso desta expressão em vista da importância desses achados para a cultura.
1.1.1. A Arqueologia Bíblica
A porta para o mundo histórico do Antigo Testamento foi aberta já em 1843 pelo francês Paul-Émile Botta. Em escavações efetuadas em Khursabad, na Mesopotâmia, ele se encontrou inesperadamente diante das imagens em relevo de Sargão II, o rei assírio que despovoou Israel e conduziu seu povo em longas colunas. Os relatos das campanhas desse soberano relacionam­se com a conquista de Samaria, igualmente descrita na Bíblia.
Há cerca de um século, estudiosos americanos, ingleses, franceses e alemães vêm fazendo escavações no Oriente Próximo, na Mesopotâmia, na Palestina e no Egito. As grandes nações fundaram institutos e escolas especializadas nesses trabalhos de pesquisa. Em 1869, foi criado o Palestine-Exploration Fund; em 1892, a École Biblique dos dominicanos de Saint-Étienne; seguindo-se, em 1898, a Deutsche Orientgesellschaft; em 1900, a American School of Oriental Research; e em 1901, o Deutscher Evangelischer Institut fur Altertumskunde.
Na Palestina, são descobertos lugares e cidades muitas vezes mencionados na Bíblia. Apresentam-se exatamente como a Bíblia os descreve e no lugar exato em que ela os situa. Em inscrições e monumentos arquitetônicos primitivos, os pesquisadores encontram cada vez mais personagens do Velho Testamento e do Novo Testamento. Relevos contemporâneos mostram imagens de povos de que só tínhamos conhecimento de nome. Seus traços fisionômicos, seus trajes, suas armas adquirem forma para a posteridade. Esculturas e imagens gigantescas mostram os hititas de grosso nariz, os altos e esbeltos filisteus, os elegantes príncipes cananeus, com seus “carros de ferro”, tão temidos por Israel, os pacíficos e sorridentes reis de Mari ­contemporâneos de Abraão. Através dos milênios, os reis assírios não perderam nada de seu semblante altivo e feroz: Teglath Phalasar III, famoso no Velho Testamento com o nome de Ful Senaquerib, que destruiu Lakish e sitiou Jerusalém, Asaradão, que mandou pôr a ferros o Rei Manassés, e Assurbanipal, o “grande e famoso Asnafar” do livro de Esdras.
Como fizeram com Nínive e Nemrod -a antiga Cale -, como fizeram com Assur e Tebas, que os profetas chamavam No-Amon, os pesquisadores despertaram do sono do passado a famosa Babel da Bíblia, com sua torre fabulosa. Os arqueólogos encontraram no delta do Nilo as cidades de Pitom e Ramsés, onde Israel sofreu odiosa escravidão, descobriram as camadas de fogo e destruição que acompanharam a marcha dos filhos de Israel na conquista de Canaã, e em Gabaon a fortaleza de Saul, sobre cujos muros o jovem Davi cantou para ele ao som da harpa; em Megido descobriram uma cavalariça gigantesca do Rei Salomão, que tinha doze mil soldados a cavalo.
Do mundo do Novo Testamento ressurgiam as magníficas construções do Rei Herodes; no coração da antiga Jerusalém foi descoberta a plataforma (litostrotos), citada por João, o Evangelista, onde Jesus esteve diante de Pilatos; os assiriólogos decifraram em tábuas astronômicas da Babilônia os precisos dados de observação da estrela de Belém.
1.1.2. Os Resultados
Assombrosos e incalculáveis por sua profusão, esses dados e descobertas modificaram a maneira de considerar a Bíblia. Episódios que até agora
muitos consideravam simples “histórias piedosas” adquirem de repente estatura histórica. Por vezes, os resultados da pesquisa coincidem com as narrativas bíblicas nos mínimos detalhes. Eles não só “confirmam”, mas esclarecem igualmente os acontecimentos históricos que originaram o Velho Testamento e os Evangelhos. As experiências e o destino do povo de Israel são assim apresentados, não só num cenário vivo e variegado, como num colorido painel da vida diária, mas também nas circunstâncias e lutas políticas, culturais e econômicas dos Estados e impérios da Mesopotâmia e do Nilo, das quais nunca puderam libertar-se inteiramente, durante mais de dois mil anos, os habitantes de estreita região intermédia da Palestina.
Na opinião geral, a Bíblia é exclusivamente história sagrada, testemunho de crença para os cristãos de todo o mundo. Na verdade, ela é ao mesmo tempo um livro de acontecimentos reais. É bem verdade que, sob esse ponto de vista, ela carece de integralidade, porque o povo judeu escreveu sua história somente em relação a Jeová e sob a ótica de seus pecados e sua expiação. Mas esses acontecimentos são historicamente genuínos e têm se revelado de uma exatidão verdadeiramente espantosa.
Com o auxílio dos resultados das explorações, diversas narrativas bíblicas podem ser agora muito mais bem compreendidas e interpretadas. É verdade que existem correntes teológicas para as quais o que vale é a palavra e nada mais que a palavra. “Mas como se poderá compreendê-la”, questiona o Profº. André Parrot, arqueólogo francês mundialmente famoso, “se não se puder encaixá-la no seu preciso quadro cronológico, histórico e geográfico?”
Até agora o conhecimento dessas descobertas extraordinárias era privilégio de um pequeno círculo de peritos. Ainda há meio século, o Profº. Friedrich Delitzsch perguntava-se, em Berlim: “Para que tantas fadigas em terras distantes, inóspitas e perigosas? Para que esse dispendioso revolver de escombros multimilenários, até atingir as águas subterrâneas, onde não se encontra ouro nem prata? Para que essa competição das nações no sentido de assegurarem para si o privilégio de escavar essas áridas colinas?” O sábio alemão Gustav Dalman deu-lhe, em Jerusalém, a resposta adequada, quando expressou a esperança de que, um dia, tudo o que as pesquisas “viram e comprovaram seria não só valorizado em trabalhos científicos, mas também utilizado praticamente na escola e na igreja”. Isso, porém, ainda não aconteceu.
1.1.3. A Bíblia
Nenhum livro da história da humanidade jamais produziu um efeito tão revolucionário, exerceu uma influência tão decisiva no desenvolvimento de todo o mundo ocidental e teve uma difusão tão universal como o “Livro dos Livros”, a Bíblia. Ela está hoje traduzida em mil cento e vinte línguas e dialetos e, após dois mil anos, ainda não dá qualquer sinal de que haja terminado a sua triunfal carreira.
1.2. Os informes históricos de fontes assírias
Os informes históricos de fontes assírias formam um complemento muito precioso aos relatos dos livros bíblicos e auxiliam-nos principalmente a controlar e corrigir a cronologia bíblica. Pela primeira vez, só vamos encontrar o nome de Israel nos textos assírios, lá pelo século nove antes da era cristã (853), por ocasião do encontro de Salmanassar III -nas imediações de Carcar, na Síria -com o exército aliado das potências sírio-palestinenses.

Dos monumentos assírios, que se relacionam com Israel, o mais importante é o famoso Obelisco Negro do rei Salmanassar III (859-829). Essa pedra, que mede uns dois metros de altura, acha-se no Museu Britânico, em Londres. Nela estão gravados, em três filas, as imagens dos povos vencidos por aquele monarca, levando tributo para o rei vencedor. A segunda fileira, no alto, representa israelitas levando tributo (842). Este obelisco é valioso por nos oferecer um quadro figurativo dos tipos e trajes israelitas, como os via o artista assírio.

Imagens de judeus da época bíblica também se encontram em outros monumentos assírios. Existe um baixo-relevo do rei assírio Sanaquerib,o qual foi descoberto no lugarejo de Quidjique, onde antigamente ficava a cidade de Ninive. Nesse baixo-relevo, que também se acha em Londres, representa-se a subjugação da cidade de Lachish em Judá (701 A.C.). No quadro também se vêem judeus conduzidos para a presença do rei. São também de muita importância os informes assírios sobre as suas guerras com Israel e a queda de Samária.
Do mesmo modo foram descobertos documentos relativamente detalhados, a respeito do sítio de Jerusalém na época de Ezequias, os quais completam os relatos da Escritura Sagrada. Não menos valiosas são as notícias descobertas nos materiais assírios sobre a época de Menassé. Por outro lado, ressentem-se as fontes bíblicas da falta de notícias a respeito das últimas guerras com Judá e a destruição de Jerusalém. Além dos monumentos que se relacionam diretamente com Israel e Judá, foram encontrados muitos materiais assírios, babilônicos, e mais tarde também hamíticos (textos religiosos, obras literárias, etc.), os quais indiretamente nos ajudam a melhor compreender o desenvolvimento econômico e a evolução do povo judeu na antiguidade, especialmente a sua conexão íntima com a cultura dos demais povos daquela época.
Requer-se naturalmente o maior cuidado quando se fazem deduções baseadas em cotejos literários. Semelhança de tema, idéias e até de expressão, são freqüentemente o resultado de análogas situações e semelhantes condições de vida.
Os influxos babilônicos percebem-se com clareza nos primeiros capítulos de Gênesis, nas narrativas sobre a criação do mundo e a história primitiva da humanidade. Neste particular é muito instrutiva a descrição babilônica do dilúvio, a qual se assemelha à história bíblica, não só em sua idéia central que, aliás, é difundida pelo mundo inteiro, mas também em alguns detalhes curiosos, como se verifica, adiante, pelo confronto do texto babilônico com o texto bíblico.
Na narrativa babilônica é o próprio personagem do dilúvio, Utnapishtim, quem conta as suas experiências, ao passo que em Gênesis fala-se de Noé na terceira pessoa. Há também no fundo consideráveis diferenças. Na narrativa babilônica faltam principalmente as razões éticas da destruição do mundo, como as encontramos em Gênesis. Outra variação importante é introduzida pelo monoteísmo bíblico. Não obstante, ainda assim é bem evidente, como demonstra o confronto que segue, a dependência do autor de Gênesis da fonte babilônica mais antiga. Eis os dois textos comparados:
1.3. Texto Babilônico
“No monte Nissir parou o navio. O monte Nissir deteve o navio, não o deixando balançar... Quando repontou o sétimo dia, soltei uma pomba, deixando-a voar. A pomba saiu e voltou; porque não achou repouso, ela voltou. Soltei uma andorinha, deixando-a voar. A andorinha saiu e voltou, porque não encontrou repouso, ela voltou. Soltei um corvo, deixando-o voar. O corvo saiu, viu que a água cessou... e não voltou mais. Então fui soltando (sempre) por todos os quatro ventos, e ofereci um sacrifício, ofereci um holocausto no cume do monte”.
1.4. Texto Bíblico
“E foram as águas indo e minguando... e apareceram os cumes dos montes. E aconteceu que ao cabo de quarenta dias, abriu Noé a janela da arca e soltou um corvo, que saiu indo e voltando até que as águas se secaram de sobre a terra. Depois soltou uma pomba, a ver se as águas tinham minguado sobre a face da terra. A pomba, porém não achou repouso para a planta do seu pé e voltou a ele para a arca; porque as águas estavam sobre a face de toda a terra... e esperou ainda outros sete dias, e tornou a enviar a pomba fora do arco, e a pomba voltou a ele sobre a tarde; e eis arrancada, uma folha de oliveira no seu bico, e conheceu Noé que as águas tinham minguado sobre a terra. Então esperou ainda outros sete dias, e enviou a pomba, mas não tornou mais a ele... E então Noé saiu e sua mulher e seus filhos... e tomou de todo o animal limpo e de toda a ave limpa e ofereceu holocaustos sobre o altar” Gn 8.5-20.
Nos outros paralelos babilônicos, a semelhança dá menos na vista, sendo até provável que, em casos isolados, se trate de analogias casuais. Mas seja como for, o certo é que tradições e concepções babilônicas eram também conhecidas em Judá e Israel e que certas idéias e motivos, de uma forma mais ou menos modificada, foram também incluídos na literatura bíblica.
Monumento bem importante neste setor é o Código Hamurabi. A pedra em que o referido código está gravada, foi descoberta nas ruínas da cidade de Suse (Susan) na Pérsia, no inverno de 1901-1902. O texto do código foi pela primeira vez publicado, por V. Sheil, em 1902, causando logo uma grande sensação.
Muitos sábios pretendiam ver nas leis do Pentateuco simples imitação, ou cópia modificada do Código Hamurabi. A denominada escola “Pan-Babilônica” (H. Vinkler, A. Jeremias e outros) encontrava nisso especial confirmação de sua tese: que todos os povos da Ásia Menor -inclusive os judeus -hauriram toda a sua sabedoria na Babilônia. Mas, hoje em dia, rejeita-se este “babilonismo” exagerado, do fim do século dezenove e princípios do século vinte. Não há que negar as semelhanças e conexões, porém, numa pesquisa mais acurada também aparecem claramente a diferença e a originalidade do desenvolvimento espiritual em Israel.
Efetivamente, algumas leis avulsas do Pentateuco assemelham-se, segundo a sua formulação, às respectivas normas em códigos babilônicos, sendo até provável que o direito babilônico, e particularmente o Código Hamurabi, estivesse conhecido na Palestina também. Porém, de um modo geral, quando confrontamos o direito bíblico com o do Oriente antigo, ressalta mais a diversidade que a semelhança. O direito babilônico cuida em primeiro plano de proteger a vida e os bens do cidadão, determinando severos castigos não só por assassínio como também por roubo e furto. Ao passo que as leis bíblicas visam antes de qualquer coisa a proteção dos socialmente fracos, e defendem os assalariados, os servos, os estrangeiros, os órfãos e as viúvas. Enquanto, as outras leis do antigo Oriente, contêm, por exemplo, disposições para assegurar os direitos do credor, encontramos no Pentateuco, aos invés disso, uma série de leis que favorecem o devedor.
O mesmo se pode afirmar em relação ao direito escravista. Em Deuteronômio proibe-se expressamente a entrega de um escravo, que fugisse de seu amo, ao passo que pelo Código Hamurabi aquele que esconde um escravo fugido merece pena de morte. Ainda em muitos outros detalhes se notam consideráveis diferenças entre as leis bíblicas e as da Babilônia, diferenças que se explicam principalmente pelas condições econômicas e político-sociais de Israel.
1.5. A localização da Palestina
Geograficamente, a Palestina é situada muito mais próximo do Egito que da Mesopotâmia, e não há dúvida de que as suas relações econômicas também eram mais intensas com o país do Nilo do que com as regiões do Tigre e Eufrates. Apesar disso, o que menos se sente na Bíblia é a influência espiritual do Egito. A antiga terra civilizada do Nilo, que já possuía atrás de si uma história de três mil anos, quando Israel ensaiara os primeiros passos, era geralmente mais retraída e revelava menos ambição para expansão política e espiritual dos que os universais impérios mesopotâmicos. Não obstante, era o Egito uma potência mundial com amplos interesses políticos e econômicos no mundo daquela época, e muitas vezes promovia guerras para conquistar a Palestina, que sempre fora importante ponto de contacto internacional. Durante os séculos 15-13 A.C., eram os egípcios quem dominavam a Palestina e, como se verifica pelas tradições bíblicas, tribos israelitas habitavam então as zonas limítrofes do Egito. Nas fontes egípcias não se encontrou até o presente nenhuma referência que confirmasse as narrativas da Bíblia sobre a permanência e êxodo dos judeus daquele país. Contudo, a maioria dos pesquisadores julga haver fundo de verdade nessas narrativas, e certa prova disso também vêem no número relativamente grande de nomes e expressões egípcias, que se encontram nos respectivos capítulos do Pentateuco. Até nomes judaicos tais como Moisés e Pinhas, são de origem egípcia. O nome “Israel” acha-se nas fontes egípcias, pela primeira e única vez na denominada Pedra-Mernepta -monumento triunfal do rei egípcio Mernaptac (pelos 1125-1215 A.C.). Israel é ali citado juntamente com Asquelon, Guezar e Yenoam. Pelo que parece, Israel então dominava uma pequena parte da Palestina. Trezentos anos depois o monarca egípcio Sisaque invadiria Israel e cobraria tributo de Roboão de Judá. Essa vitória é perpetuada numa gravação em alto-relevo, que se acha na parede norte do afamado templo de Carnaque.
Historicamente muito valiosos, são os cadastros urbanos da Palestina e Síria, os quais se acharam em maior número, entre os materiais egípcios na célebre parede de Tutmasis (pelos 1550 A.C.).
Dos textos literários -que no Egito não eram escritos em tábuas de argila senão em papiro -merecem especial menção os provérbios do sábio Amanemope, cujo texto achado data de 1000 A.C. Encontra-se ali considerável número de paralelos aos Provérbios de Salomão. Parte dos provérbios da coleção egípcia repete-se literalmente nos capítulos 22-23 dos Provérbios da Bíblia. Há quem considere, por esse motivo, que o autor
judaico tivesse à sua frente o texto egípcio. Em geral porém, era a cultura egípcia mal vista em Israel, e os círculos proféticos combatiam com veemência as tendências pró-egípcias e, a par disso, as influências espirituais daquele país -“maassei mitzraim”.
É isso provavelmente uma das razões por que na literatura bíblica tão pouco se sente a influência egípcia.   
2-DILÚVIO

“Depois disse o Senhor a Noé: Entra na arca, tu e toda a tua casa, porque tenho visto que és justo diante de mim nesta geração (Gn 7.1). Porque, passados ainda sete dias, farei chover sobre a terra quarenta dias e quarenta noites, e exterminarei da face da terra todas as criaturas que fiz. (Gn 7.4). Noé entrou na arca com seus filhos, sua mulher e as mulheres de seus filhos, por causa das águas do dilúvio (Gn 7.7)”.
2.1. História de muitas tradições
Quando ouvimos a palavra “dilúvio”, pensamos quase imediatamente na Bíblia e na história da arca de Noé. Essa história maravilhosa do Velho Testamento viajou com o cristianismo através do mundo. E assim se tornou a tradição mais conhecida do dilúvio, embora não seja de modo algum a única. Nos povos de todas as raças existem diferentes tradições de uma inundação imensa e catastrófica. Os gregos contavam a lenda do dilúvio de Deucalião; já muito antes de Colombo, corriam entre os primitivos habitantes do continente americano numerosas histórias a respeito de uma grande inundação. Na Austrália, na Índia, na Polinésia, no Tibete, em Caxemira, na Lituânia, há histórias de uma grande inundação que vem sendo transmitidas de geração a geração até nossos dias. Serão todas mitos, lendas, produtos da imaginação?
É bem provável que todas elas reflitam a mesma catástrofe universal. Mas esse formidável acontecimento deve ter ocorrido num tempo em que já havia seres pensantes que o presenciaram e Ihe sobreviveram, podendo transmitir a notícia as gerações futuras. Os geólogos julgavam poder solucionar o velho enigma com o auxílio de sua ciência, apontando como causa a alternância de épocas de calor e períodos glaciários que assinalaram a evolução da Terra. Por quatro vezes subiu o nível dos mares quando começavam a derreter-se as tremendas camadas de gelo que cobriam os continentes, em alguns lugares com muitos milhares de metros de espessura. As águas de novo desencadeadas mudavam o aspecto da paisagem, inundavam litorais e vales profundos, exterminando homens, animais e plantas. Em suma, todas as tentativas de explicação terminavam em especulações e hipóteses. Mas conjeturas são o que menos interessa ao historiador. Ele exige sempre uma demonstração clara e material. E essa não existia; nenhum cientista, qualquer que fosse a sua especialidade, pudera dá-la. E a verdade é que foi por puro acaso, isto é, graças as escavações que visavam algo completamente diferente, que se apresentou a prova insofismável da existência do dilúvio. E isso aconteceu num sítio de escavações realizadas em Ur dos Caldeus!
2.2. Expedições Arqueológicas
Havia já seis anos que os arqueólogos americanos e ingleses estudavam o terreno junto ao Tell al Muqayyar, que nessa época dava a impressão de uma obra colossal. Quando o trem de Bagdá se detinha nesse local por um instante, os viajantes olhavam com espanto para os gigantescos montes de areia retirada. Trens inteiros de terra eram removidos, examinados cuidadosamente, passados na peneira; lixo milenar era manejado como se tratasse de valioso tesouro. A atividade, os cuidados, as fadigas e o zelo de seis anos produziram uma colheita prodigiosa. Aos templos sumérios com armazéns, fábricas e tribunais, as ricas habitações dos cidadãos, seguiram­se, de 1926 a 1928, achados de tal brilho e esplendor que obscureceram tudo o que se conseguira até então.
Refiro-me aos “túmulos reais de Ur“, como batizou Woolley, na exultação da descoberta, os túmulos de sumérios notáveis cujo esplendor verdadeiramente régio foi revelado num monte de entulho de quinze metros de altura. Esse monte de entulho ficava ao sul do templo, e os túmulos estavam dispostos numa longa fila, uns ao lado dos outros. As câmaras tumulares de pedra eram verdadeiros tesouros: estavam cheias de todas as preciosidades de Ur. Taças e copos de ouro, bilhas e vasos de formas maravilhosas, utensílios de bronze, mosaicos de madrepérola, lápis-lazúli e prata rodeavam os mortos reduzidos a pó. Encostadas as paredes havia harpas e liras. Um moço, “herói da terra de Deus”, pois assim era intitulado por uma inscrição, tinha na cabeça um elmo de ouro. Um pente de ouro, ornado de flores de lápis-lazúli, enfeitava o cabelo da bela suméria Puabi, a “Lady Shub-ad”, como a chamaram os ingleses. Coisas mais belas não haviam sido encontradas nem mesmo nas famosas câmaras mortuárias de Nefertiti e Tutancamon. E, contudo, os túmulos reais de Ur eram mil anos mais antigos do que aquelas!
Mas, a par das riquezas, os túmulos reais reservavam outro espetáculo sinistro e impressionante para os homens de nosso tempo, uma cena que não podemos considerar sem um ligeiro calafrio. Nas câmaras mortuárias foram encontradas parelhas de animais de tiro, os esqueletos ainda atrelados aos grandes carros carregados de artísticos utensílios domésticos. Era evidente que todo o cortejo fúnebre seguira os defuntos notáveis a morte, como deixavam perceber os esqueletos que os cercavam, com vestidos de festa e ornados de jóias. Vinte continha o túmulo da bela Puabi, e outras criptas continham até setenta esqueletos.
Que teria acontecido ali em épocas passadas? Não havia o menor indício de que aquela gente tivesse sofrido morte violenta. Tudo indicava que eles haviam acompanhado os defuntos a cripta em solene cortejo, com carros cheios de tesouros puxados por animais. E, enquanto pelo lado de fora o túmulo era emparedado, lá dentro eles oravam, pedindo o último repouso para o senhor morto. Depois tomavam uma droga, reuniam-se pela ultima vez em volta dele e morriam voluntariamente... a fim de poderem serví-lo também na outra vida!
Durante dois séculos, os habitantes de Ur haviam depositado seus homens notáveis naqueles túmulos. Com a abertura da mais profunda e última câmara tumular, os pesquisadores do século XX decidiram continuar com as escavações.
2.2.1. Aprofunda-se as escavações
Com a chegada do verão de 1929, aproximava-se do fim a sexta campanha de escavação no Tell al Muqayyar. Woolley pôs mais uma vez seus auxiliares nativos a trabalhar no monte dos “túmulos reais”. Não podia descansar, queria ter certeza se a terra sob o túmulo real mais profundo poderia oferecer descobertas durante o novo período de escavações. Depois de retirados os alicerces do túmulo, algumas centenas de golpes de pá revelaram que embaixo havia mais camadas de entulho. A que profundidade do passado chegariam aqueles mudos cronômetros? Quando surgiria, debaixo daquela colina, a primeira povoação assente em solo virgem? Era isso o que Woolley queria saber! Lentamente, com muito cuidado, a fim de ter certeza, mandou abrir poços e ficou ali para examinar as camadas extraídas. “Quase imediatamente se fizeram descobertas que confirmaram nossas suposições”, escreve ele mais tarde em seu relatório. “Sob o pavimento dos túmulos reais foram encontradas, numa camada de cinzas de madeira, numerosas tabuinhas de terracota cobertas de inscrições dum tipo muito mais antigo que as encontradas nos túmulos. A julgar pela escrita, as tabuinhas poderiam ser situadas mais ou menos no século XXX a.C. Deviam ser, pois, uns duzentos ou trezentos anos mais antigas do que os túmulos”.
A medida que se aprofundavam os poços, apareciam novas camadas com cacos de cântaros, potes, tigelas. O fato de a cerâmica continuar extraordinariamente inalterada chamou a atenção dos exploradores. Parecia ser exatamente igual as peças encontradas nos túmulos reais. Donde se concluía que, durante muitos séculos, a civilização dos sumérios4 não sofrera modificações dignas de nota. Devia ter atingido um alto grau de desenvolvimento em tempos muitíssimo remotos.
Quando, depois de muitos dias, um dos trabalhadores gritou para Woolley que haviam chegado ao fundo, ele desceu lá pessoalmente para se certificar. Com efeito, ali terminava bruscamente todo e qualquer vestígio humano. No solo intato, repousavam os últimos fragmentos de utensílios domésticos; aqui e ali havia vestígios de fogo. “Finalmente!”, pensou Woolley. Com cuidado, examinou o solo do fundo do poço e viu que era limo, puro limo do tipo que só se formava pela sedimentação na água! Limo naquele lugar? Woolley procurou uma explicação. Só podia ser areia de rio, uma acumulação de aluviões do Eufrates em outras eras. Aquela camada devia ter-se formado quando o grande rio estava avançando seu delta mais para o interior do Golfo Pérsico. Até hoje continua esse avanço da foz do rio para o Golfo, onde a nova terra se estende cerca de vinte e cinco metros a cada ano mar adentro. Quando Ur estava em seu apogeu, o rio Eufrates passava tão perto dela que a grande torre escalonada se espelhava nas suas águas, e do alto do seu santuário devia avistar-se o Golfo Pérsico. As primeiras habitações deviam ter sido construídas sobre o limo do antigo delta.
Medidas realizadas no terreno e cálculos feitos com mais cuidado levaram Woolley a um resultado completamente diverso e a nova conclusão. “Vi que estávamos num nível muito alto. Era difícil de aceitar que a ilha sobre a qual fora construída a primeira povoação se elevasse tanto acima da várzea”.
O fundo do poço, onde começava a camada de limo, ficava muitos metros acima do nível do rio. Não podia ser, portanto, aluvião do Eufrates. Que significava, pois, aquela extraordinária camada de limo? Como se formara? Nenhum dos seus colaboradores conseguiu dar uma resposta conclusiva. Continuaram, pois, aprofundando o poço. Superexcitado, Woolley observava, enquanto cesta após cesta ia saindo da escavação e o conteúdo era imediatamente examinado. As pás continuaram cavando, um metro, dois metros... era ainda puro limo. A cerca de três metros de profundidade, a camada de limo terminou tão bruscamente como havia começado. Que viria a seguir?
As cestas que apareceram à luz do dia, a seguir, deram uma resposta que nenhum daqueles homens podia ter imaginado. Não podiam acreditar no que viam. Esperavam terra virgem, mas o que lhes aparecia ali sob o sol implacável era novo entulho, depois mais entulho, detritos de outrora, e, entre eles, numerosos cacos de barro, sob uma camada de quase três metros de puro limo, topavam de novo com restos de habitações humanas. Mas tanto o aspecto como a técnica da cerâmica haviam mudado notavelmente. Acima da camada de limo, havia bilhas e escudelas evidentemente feitas no torno; aquelas, ao contrário, eram ainda modeladas a mão. Por mais que fosse peneirado com cuidado o conteúdo das cestas, sob a crescente expectativa dos homens, não se descobriram restos de metal em parte alguma. A ferramenta primitiva que apareceu consistia em silex polido. Devia ser da Idade da Pedra!
2.3. A descoberta do Dilúvio
Naquele dia, um telégrafo da Mesopotâmia transmitia para o mundo a mais extraordinária notícia que ouvidos humanos já ouviram: “Descobrimos o dilúvio!” A tremenda descoberta realizada em Ur ocupou as manchetes da imprensa dos Estados Unidos e da Inglaterra.
O dilúvio - essa era a única explicação possível para a enorme jazida de lama sob a colina de Ur que separava nitidamente duas épocas humanas. O mar havia deixado aí seus vestígios incontestáveis sob a forma de restos de pequenos animais marinhos. Woolley quis ter certeza o mais depressa possível. Podia ser que um acaso, se bem que improvável, tivesse iludido a ele e aos seus colaboradores. Mandou escavar um poço a uns trezentos metros do primeiro.
As pás puseram a descoberto o mesmo perfil: cacos de olaria, camadas de limo, restos de objetos de barro moldados à mão.
A fim de afastar toda e qualquer dúvida, mandou finalmente escavar ainda outro poço na massa de escombros, num lugar onde as habitações humanas se erguiam sobre uma colina natural; portanto, em camadas situadas acima do depósito de limo.
A uma profundidade mais ou menos igual aquela em que nos dois outros poços acabavam de repente as vasilhas feitas no torno, aí também deixaram de aparecer. Imediatamente abaixo, seguiam-se vasilhas feitas a mão... exatamente como Woolley imaginara e havia esperado. Somente aí faltava, naturalmente, a camada de limo divisória. “Cerca de cinco metros abaixo de um pavimento de tijolos”, observa Woolley,” a que podíamos atribuir com relativa segurança a data de 2700 anos a.C., encontramos as ruínas daquela cidade que existira antes do dilúvio”.
Até onde se estenderia a camada de limo? Que regiões teriam sido abrangidas pela catástrofe? Uma pesquisa regular dos vestígios da grande inundação está sendo levada a efeito atualmente, em outros sítios no sul da Mesopotâmia. Outros arqueólogos descobriram em Kish, ao nordeste da antiga Babilônia, onde o Eufrates e o Tigre, fazendo grandes curvas, se aproximam um do outro, um novo e importante ponto de referência. Em dado momento, toparam com uma camada de terreno de aluvião, se bem que aí tenha apenas meio metro de espessura. Por meio de sondagens, consegue­se estabelecer a extensão geral da enorme inundação. Segundo Woolley, a catástrofe cobriu, ao nordeste do Golfo Pérsico, uma extensão de seiscentos e trinta quilômetros de comprimento por cento e sessenta de largura.
Após inúmeras pesquisas e tentativas de interpretação sem resultados concretos, havia muito que se tinha abandonado a esperança de solucionar o grande mistério do dilúvio, que parecia recuar para épocas remotíssimas, insondáveis para o homem. Então, eis que o trabalho incansável e seguro de Woolley e de seus colaboradores produzia para os cientistas um resultado espantoso: não só fora descoberta uma imensa e catastrófica inundação que lembrava o dilúvio da Bíblia, frequentemente considerado pelos céticos como lenda ou fantasia, mas agora se apresentava como acontecimento ocorrido numa época histórica determinável.
Ao pé da velha torre escalonada dos sumérios, em Ur, no baixo Eufrates, podia-se descer por uma escada ao fundo de um estreito poço e ver e apalpar os restos de uma imensa inundação, uma camada de limo de quase três metros de espessura. E, pela idade das camadas que indicavam estabelecimentos humanos e nas quais se podia ler o tempo como num calendário, podia-se também determinar quando ocorrera essa inundação. Ocorreu por volta de 4000 a.C.
 
3-A ARCA DE NÓE EO MONTE ARARAT

“Então disse Deus a Noé: O fim de toda carne é chegado perante mim; porque a terra está cheia da violência dos homens; eis que os destruirei juntamente com a terra. Faze para ti uma arca de madeira de gôfer: farás compartimentos na arca, e a revestirás de betume por dentro e por fora. (Gn 6.13-14). Assim fez Noé; segundo tudo o que Deus lhe mandou, assim o fez (Gn 6.22). e a arca repousou, no sétimo mês, no dia dezessete do mês, sobre os montes de Ararat”.
3.1. Localização do Monte Ararat e as Expedições Arqueológicas
O monte Ararat está situado na parte oriental da Turquia, próximo a fronteira soviético-iraniana. Seu cume, coberto de neves perpétuas, eleva-se cinco mil cento e cinqüenta e seis metros acima do nível do mar.

3.1.1. Monte Ararat 
As primeiras expedições ao monte Ararat aconteceram já no século passado, muitos anos antes que os arqueólogos começassem a escavar no solo da Mesopotâmia. O impulso que levou a essas expedições foi dado pela história de um pastor.
Nas faldas do Ararat, existe uma aldeiazinha armênia chamada Bayzit, cujos habitantes contam há várias gerações a aventura extraordinária de um pastor das montanhas que um dia, no monte Ararat, teria visto um grande navio de madeira. A narrativa de uma expedição turca do ano de 1833 parecia confirmar a história do pastor. Essa narrativa fala expressamente da proa de um navio de madeira que no verão seria posta a descoberto na geleira do sul.
Depois teria sido vista pelo Dr. Nouri, arcediago de Jerusalém e Babilônia. Esse irrequieto dignitário eclesiástico empreendeu, em 1892, uma viagem de exploração as cabeceiras do Eufrates. Ao voltar, falou dos restos de um navio que vira no gelo perpétuo: “O interior estava cheio de neve; a parede exterior apresentava um tom vermelho escuro”.
Durante a Primeira Guerra Mundial, um oficial de aviação russo chamado Roskovitzki informou ter avistado de seu avião, na encosta sul do Ararat, “os restos de um estranho navio”. Em plena guerra, o Czar Nicolau II expediu imediatamente um grupo para investigar. Esse grupo não só teria visto o navio, mas até tirado fotografias dele. Parece, entretanto, que todas as provas desapareceram durante a Revolução de Outubro.
Durante a Segunda Guerra Mundial, várias pessoas informaram terem visto a arca do ar, um piloto russo e quatro aviadores americanos.
As últimas notícias fizeram entrar em campo o historiador e missionário americano, Dr. Aaron Smith, de Greensborough, perito em dilúvio. Após longos anos de trabalho, conseguiu compilar uma história literária sobre a arca de Noé. Existem oitenta mil obras, em setenta e duas línguas, sobre o dilúvio, sete mil das quais mencionam o lendário casco do Ararat.
Em 1951, com quarenta companheiros, o Dr. Smith percorreu em vão a calota de gelo do Ararat durante doze dias. “Embora não tenhamos encontrado vestígio algum da arca de Noé”, declarou mais tarde, “minha confiança na descrição bíblica do dilúvio reforçou-se ainda mais. Voltaremos lá”.
Animado pelo Dr. Smith, o jovem explorador francês da Groenlândia, Jean de Riquer, subiu ao monte vulcânico em 1952. Também ele voltou sem resultados de qualquer espécie sobre a arca. Não obstante, continuamente estão sendo organizadas novas expedições ao monte Ararat.
Nenhuma tradição sobre os tempos primitivos da Mesopotâmia concorda tão de perto com a Bíblia como a história da inundação descrita na epopéia de Gilgamesh. Em alguns trechos, há uma consonância quase literal. Existe, porém, uma diferença significativa e essencialíssima. Na história do Gênesis, tão familiar para nós, trata-se de um Deus único. Desapareceu a idéia grotesca, fantástica e primitiva de um céu superpovoado de divindades, muitas das quais apresentam características demasiado humanas, divindades que choram e se lamentam, e se assustam e se encolhem como cães.
3.1.2. Aportamento da Arca de Noé
O problema com todas as tradições supracitadas do dilúvio está justamente na tendência pouco feliz de o homem acreditar naquilo em que gostaria de crer. Essa mentalidade vem a tona de maneira bem acentuada na busca da arca no cume do monte Agri Dagi, que se eleva a cinco mil cento e sessenta e cinco metros acima do nível do mar, situado na fronteira entre a Turquia e a URSS. Segundo a Bíblia (Gn 8.4), lá teria aportado a arca de Noé. A rigor, a indicação não é tão inequívoca como parece ser, pois a Bíblia fala somente nos “montes de Ararat”, quando “Ararat” é apenas a designação do antigo país de Urartu, o que, grosso modo, corresponde a Armênia moderna. 


3.1.3. Mapa do Monte Ararat 
A epopéia de Gilgamesh menciona ainda o “monte Nisir” como local do aportamento da arca; por sua vez, Beroso, sacerdote babilônico da época do helenismo, em sua obra Antiguidades babilônias, introduz nos debates mais outro local, as “montanhas de Cordiéia”. A título de mais outro candidato a honra de servir de ponto de ancoragem para a arca de Noé, surgiu um monte na Frígia, Ásia Menor, perto da cidade de Celaenae, lendária desde a Antiguidade, e, por fim, os maometanos preferem localizar o sítio do aportamento da arca mais ao sul do Agri Dagi, no monte Djudi, de cujo cume se tem ampla vista panorâmica da planície da “terra entre os rios”. Em todo caso, estão sobrando alguns montes de aportamento da arca de Noé.
Foto ilustrativa arca de Noé (3)
3.1.4. Como era a Arca de Noé
Da mesma forma, tampouco foram convenientemente documentados os eventos ligados ao Agri Dagi, o monte do aportamento da arca da mencionada tradição cristã. Para André Parrot, o mutismo e a única atitude a ser adotada pela literatura especializada diante das tentativas periódicas, e que a imprensa costuma divulgar sempre com grande alarde, de visualizar restos da arca bíblica naquelas altitudes, sob o gelo e a neve. Efetivamente, até hoje nenhum arqueólogo profissional participou daquelas tentativas de localizar a arca, e inexiste todo e qualquer esboço do local do achado cientificamente aproveitável; também não há dados sobre os métodos de busca empregados e as circunstâncias nas quais o achado foi feito, e muito menos uma documentação fotográfica. Isso não se deve ao fato de arqueólogos “profissionais” se recusarem a despender os esforços necessários à escalada do monte Ararat (ou melhor, Agri Dagi), mas antes ao aspecto financeiro da questão, visto que pesquisas arqueológicas sistemáticas em terreno tão difícil e acidentado como esse implicariam despesas enormes. E acontece que verbas de tal vulto geralmente são liberadas quando de fato podem ser antecipados achados de grande interesse científico e geral. Com o Ararat, tais achados são pouco prováveis, e assim, por enquanto, devemos dizer: desde que existe o monte de cinco mil cento e sessenta e cinco metros de altitude e desde que o homem povoa a Terra, nenhuma inundação do mundo, “cientificamente explorada”, subiu o bastante para levar aquelas alturas um objeto parecido com a arca bíblica. Por outro lado, no decorrer desse tempo, não houve na região do Ararat nenhuma elevação do solo, de proporções suficientemente espetaculares para permitir que a arca ali aportasse, talvez, em uma época quando o cume era menos alto que hoje. Logo, parecem ser inúteis as tentativas de procurar a arca no Agri Dagi, e, segundo a opinião bastante abalizada de André Parrot, todas as expedições para o monte Ararat visam mais o alpinismo que a arqueologia.
3.1.5. Madeira antiqüíssima encontrada no Monte Ararat
Igualmente, não existiria madeira com “no mínimo cinco mil anos”, tirada do monte Ararat? Existe, sim; tal madeira foi recolhida e apresentada; afirmou-se até que era do Ararat. Porém, a datação não confere; noticiou-se que estaria baseada em “estimativas” de um instituto florestal de Madri; “um laboratório em Paris” teria datado aquela madeira de quatro mil quatrocentos e oitenta e quatro anos antes da época moderna, ao passo que um “instituto de pesquisas pré-históricas”, em Bordeus, teria somente comentado a “idade antiquíssima” do material analisado. Mas mesmo que, com um exame mais aprofundado desses dados, os respectivos institutos se revelassem sérios e seus pareceres, responsáveis e inatacáveis, cumpriria considerar o fato de as provas do material, retiradas do seu local de achado por pessoas inexperientes no assunto e levadas por grandes distâncias até os respectivos locais de destino, terem evidentemente sofrido alterações que influiram nos seus valores de medição, a ponto de nem mais ser possível fazer uma datação exata. Uma das expedições deixou até de reencontrar o primitivo local do achado da madeira em questão, mas em compensação encontrou madeira em outro sítio do Agri Dagi, cuja idade foi estimada em somente mil e trezentos a mil e setecentos anos. Esse resultado enquadra-se e muito bem na tese levantada por alguns cientistas, segundo a qual o Agri Dagi era considerado “monte santo”, devido a seu nexo tradicional com o relato bíblico do dilúvio; lá teriam existido abrigos para peregrinos ou cavernas habitadas por eremitas, datados de tempos cristãos. 
Foto ilustrativa do Monte Ararat (4)
3.1.6. Ur dos Caldeus
“Tomou Terá a Abrão seu filho, e a Ló filho de Harã, filho de seu filho, e a Sarai sua nora, mulher de seu filho Abrão, e saiu com eles de Ur dos Caldeus, a fim de ir para a terra de Canaã; e vieram até Harã, e ali habitaram”.
Foto ilustrativa de Ur Caldeus (5)
3.2. Localização de Ur
Atualmente, Ur é uma estação de estrada de ferro, 180 Km ao norte de Baçorá, perto do golfo Pérsico, uma das muitas estações da célebre estrada de ferro de Bagdá (capital do Iraque). O trem regular faz uma breve parada nessa estação ao romper da aurora. Quando se extingue os ruídos das rodas do trem, que continua em seu trajeto para o norte, o viajante que aí desembarca é envolvido pelo silêncio do deserto.
Seu olhar desliza pela monotonia pardo-amarelada de intermináveis planícies de areia. É como se encontrasse no meio de um prato raso, riscado apenas pelos trilhos da via férrea. Um único ponto altera a vastidão ondulante e desolada: iluminado pelo sol nascente, avulta no meio do deserto um imenso toco vermelho-fosco, o qual apresenta profundas mossas como se fossem produzidas por um titã. Para os beduínos é bem familiar esse morro solitário em cujas fendas, lá no alto, fazem ninho as corujas. Eles o conhecem desde tempos imemoriais e chamam-no Tell al Muqayyar, “Monte dos Degraus”.
3.2.1. Expedição Arqueológica em Ur

3.2.2. Objetos Pessoais achados em Ur
No ano de 1923 uma expedição anglo-americana começou a trabalhar no Tell al Muqayyar. Nos primeiros dias de dezembro levantou-se uma nuvem de pó sobre os montes de entulho a leste do zigurate, a poucos passos apenas da larga rampa por onde outrora os sacerdotes se dirigiam, em procissão solene, ao sacrário de Nannar, o deus da lua. Levada por uma brisa, a nuvem se espalhou e em breve teve-se a impressão de que a velha torre escalonada estava toda envolta em tênue nebulosidade. Era areia fina que, removida por centenas de pás, indicava que a grande escavação havia começado.
Desde o momento em que a primeira pá foi cravada no solo, toda a colina se envolveu numa atmosfera de ansiosa expectativa. Cada escavação parecia uma viagem a um reino desconhecido, que ninguém sabe que surpresa reserva ao explorador. O próprio Woolley e seus colaboradores não podiam dominar a impaciência. O suor e as energias empregados nesse trabalho seriam compensados por importantes descobertas? Ur lhes desvendaria seus mistérios? Nenhum deles podiam imaginar que isso lhes tomaria seis longos invernos de árduo trabalho, até a primavera de 1929. Essa escavação em grande escala, ao sul da Mesopotâmia, viria a desvendar, capítulo por capítulo, os tempos distantes em que se formou nova terra no delta dos dois grandes rios e onde se estabeleceram os primeiros povoados humanos. Ao longo do penoso caminho da pesquisa, que retrocedeu no tempo até sete mil anos atrás, tomariam forma, por mais de uma vez, acontecimentos e nomes de que nos fala a Bíblia.
3.2.3. Começam as descobertas
A primeira descoberta consistiu num recinto sagrado com os restos de cinco templos que outrora envolviam, num semicírculo, o zigurate construído pelo
Rei Ur-Nammu. Os exploradores pensaram tratar-se de fortalezas, tão poderosos eram seus muros. O maior, ocupando uma superfície de 100 x 60 mt, era consagrado pelo deus da lua, outro templo ao culto de Nin-Gal, deusa da lua, e esposa de Nannar. Cada templo tinha um pátio interior, circundado por uma série de compartimentos. Neles se encontravam ainda as antigas fontes, com longas pias calafetadas a betume, e profundos talhos de faca nas grandes mesas de tijolos, que permitiam ver onde os animais destinados ao sacrifício eram mortos. Em lareiras situadas nas cozinhas dos templos, esses animais eram preparados para o repasto sacrifical comum. Havia até fornos para cozer pão. “Depois de 38 séculos”, observou Woolley em seu relatório da expedição, “podia-se acender novamente o fogo ali, e as mais antigas cozinhas do mundo podiam ser utilizadas novamente”.
                                                                          

3.2.4. Mais objetos encontrados em Ur dos Caldeus
Hoje em dia, as igrejas, os tribunais, a administração das finanças, as fábricas são instituições rigorosamente independentes entre si. Em Ur era diferente. O recinto sagrado, a circunscrição do templo, não era dedicada exclusivamente ao culto aos deuses. Além dos atos do culto, os sacerdotes desempenhavam muitas outras funções. Fora as oferendas, recebiam os dízimos e os impostos. E isso não se fazia sem o devido registro. Cada entrega era anotada em tabuinhas de barro, certamente os primeiros recibos de impostos de que se tem conhecimento. Sacerdotes escribas englobavam essa coleta de impostos em memorandos semanais, mensais e anuais.
Ainda não se conhecia o dinheiro cunhado. Os impostos eram pagos em espécie: cada habitante de Ur pagava à sua maneira. O azeite, os cereais, as frutas, a lã e o gado iam para vastos depósitos; os artigos de fácil deterioração eram guardados em estabelecimentos comerciais existentes no templo. Muitas mercadorias eram beneficiadas no próprio templo, como nas tecelagens dirigidas por sacerdotes. Uma oficina produzia doze espécies de vestes. Nas tabuinhas ali encontradas estavam anotados os nomes das tecelãs empregadas e os meios de subsistência conferidos a cada um. Até o peso de lã confiado a cada operária e o número de peças de roupa prontas que daí resultava eram registrados com minuciosa precisão. No edifício de um tribunal, foram encontradas, cuidadosamente empilhadas, cópias de sentenças, tal como se faz em nossos tribunais de hoje.
3.2.5. Descoberta da cidade de Ur dos Caldeus
Havia já três invernos que a expedição anglo-americana trabalhavam nos sítios da velha Ur, e esse singular museu da história primitiva da humanidade ainda não havia revelado todos os seus segredos. Fora do recinto do templo os exploradores experimentaram uma surpresa inaudita.

Ao limparem uma série de colinas ao sul da torre escalonada, surgiram de repente diante de seus olhos paredes, muros e fachadas dispostas umas ao lado das outras, fila após fila. Pouco a pouco, as pás puseram a descoberta na areia um compacto quadrado de casas cujas ruínas mediam ainda em algumas partes três metros de altura. Entre elas passavam estreitas ruelas. Em alguns trechos, as ruas eram interrompidas por praças.
Após muitas semanas de trabalho árduo e remoção de inúmeras toneladas de cascalho, apresentou-se aos escavadores um quadro inesquecível.
Sob o avermelhado Tell al Muqayyar estendia-se ao sol brilhante toda uma cidade, despertada pelos incansáveis pesquisadores após um sono de milênios! Woolley e seus colaboradores ficaram fora de si de alegria. Pois diante deles estava Ur, aquela Ur dos Caldeus de que falava a Bíblia!
3.2.6. Como era Ur dos Caldeus
3.2.6.1. Ziggurat em Ur dos Caldeus
E como seus habitantes moravam confortavelmente! Como eram vistosas suas casas! Em nenhuma outra cidade da Mesopotâmia foram descobertas habitações tão esplêndidas e confortáveis.
Comparadas a elas, as habitações que se conservaram da Babilônia parecem pobres, miseráveis mesmo. O profº. Koldewey, nas escavações alemãs realizadas no princípio deste século, só encontrou construções simples de barro, de um andar, com três ou quatro cômodos, envolta de um pátio aberto. Assim vivia também a população da tão admirada e louvada metrópole do grande babilônia Nabucodonosor. Os cidadãos de Ur, ao contrário, já 1.500 anos antes viviam em construções maciças em forma de vilas, a maioria de dois andares, com treze a quatorze cômodos. O andar inferior era sólido, construído de tijolos cozidos num forno de barro, as paredes caiadas de branco.
O visitante transpunha a porta e entrava num pequeno vestíbulo onde havia pias para lavar a poeira das mãos e dos pés. Daí passava ao grande e claro pátio interior, cujo chão era lindamente pavimentado. Em volta dele se agrupavam a sala de visitas, a cozinha, as demais salas e quartos também para os criados e o santuário doméstico para uma escada de pedra, sob a qual se escondia a privada, subia-se a uma antecâmara circular para onde abria os quartos dos membros da família e dos hóspedes.
Sobre muros e paredes demolidos reapareceu a luz do dia tudo o que havia integrado as mobílias e a vida naquelas casas aristocráticas. Inúmeros fragmentos de potes, cântaros, vasos e tabuinhas de barro com inscrições foram compondo um mosaico pelo qual foi possível construir pedrinha a pedrinha a vida cotidiana de Ur. A Ur dos Caldeus era uma capital poderosa, próspera, colorida e industriosa no começo do segundo milênio antes de Cristo.
3.2.7. Abraão e Ur dos Caldeus
Woolley não conseguiu livrar-se de um pensamento que lhe ocorrera. Abraão devia ter saído da Ur dos Caldeus...7 Portanto devia ter vindo ao mundo e crescido numa daquelas casas aristocráticas de dois andares. Devia ter passeado junto aos muros do grande templo e pelas ruas, e, levantando a vista, seu olhar devia ter encontrado a gigantesca torre escalonada com seus cubos pretos, vermelhos e azuis circundados de árvores. “Vendo em que ambiente requintado passou a juventude, devemos modificar nossa concepção do patriarca hebreu”, escreveu Woolley com entusiasmo “foi cidadão de uma grande cidade e herdou a tradição de uma civilização antiga e altamente organizada. As próprias casas denunciavam conforto, até mesmo luxo. Encontramos cópias de hinos relativos aos cultos do templo e, juntamente com eles, tabelas matemáticas. Nessas tabelas havia, ao lado de simples problemas de adição, fórmulas para a extração das raízes quadrada e cúbica. Em outros textos, os escribas haviam copiado as inscrições dos edifícios da cidade e compilado até uma resumida história do templo”!
Abraão não era um simples nômade: era filho de uma metrópole do segundo milênio antes de Cristo.
Foi uma descoberta sensacional, aparentemente incrível! Jornais e revistas publicaram fotografias da velha e desmantelada torre escalonada e das ruínas da metrópole desenterrada, que produziram tremenda impressão.
Vista aérea de Ur Caldeus (11)
3.3. A terra de Canaã
“Tomou Tera a Abrão seu filho, e a Ló filho de Harã, filho de seu filho, e a Sarai sua nora, mulher de seu filho Abrão, e saiu com eles de Ur dos Caldeus, a fim de ir para a terra de Canaã; e vieram até Harã, e ali habitaram (Gn 11.31)”.
“Abrão levou consigo a Sarai, sua mulher, e a Ló, filho de seu irmão, e todos os bens que haviam adquirido, e as almas que lhes acresceram em Harã; e saíram a fim de irem à terra de Canaã; e à terra de Canaã chegaram (Gn 12.5)”.
3.3.1. Localização e descrição da terra de Canaã
Canaã é uma faixa de terra estreita e montanhosa entre a costa do Mediterrâneo e a orla do deserto, desde Gaza, no sul, até Emat, no norte, às margens do Orontes.
Canaã significa “terra da púrpura”. Deve seu nome a um produto local muito cobiçado na Antiguidade. Desde os tempos mais primitivos, seus habitantes extraíam de um caracol do mar, do gênero Murex, nativo dessa região, a tinta mais famosa do mundo antigo, a púrpura. Era tão rara, tão difícil de extrair e, por isso mesmo, tão cara, que só os ricos podiam adquirí-la. As vestes tingidas de púrpura eram consideradas em todo o antigo Oriente sinal de alta categoria. Os gregos chamavam fenícios aos fabricantes e tintureiros de púrpura da costa do Mediterrâneo, e a sua terra, Fenícia, que na língua deles significava “púrpura”.
A terra de Canaã é também o berço de dois fatos que comoveram profundamente o mundo: a palavra “Bíblia” e o nosso alfabeto! Uma cidade fenícia deu nome a palavra que designa “livro” em grego; de Biblos, cidade marítima de Canaã, originou-se “biblion” e desta, mais tarde, “Bíblia”. No século IX a.C. os gregos tomavam de Canaã as letras do nosso alfabeto.
A parte da região que viria a ser a pátria do povo de Israel foi batizada, pelos romanos, com o nome dos seus mais acérrimos inimigos: o nome “Palestina” é derivado de “pelishtim”, como são designados os filisteus no Velho Testamento. Habitavam a parte meridional da costa de Canaã ...todo Israel, desde Dã até Bersabé (1Sm 3.20). Assim descreve a Bíblia a extensão da Terra Prometida, isto é, das nascentes do Jordão, nas faldas do Hermon, até as colinas situadas a leste do mar Morto, e até o Neguev, na Terra do Meio-Dia.
Vista num globo terrestre, a Palestina é apenas uma manchazinha na nossa Terra, um pequeno traço. Hoje, as fronteiras do antigo reino de Israel podem ser percorridas comodamente num dia, de automóvel. Com duzentos e trinta quilômetros de norte a sul, trinta e sete de largura nas partes mais estreitas, vinte e cinco mil cento e vinte e quatro quilômetros quadrados de superfície, o reino de Israel tinha o tamanho da Sicília. Só foi maior durante alguns decênios de sua movimentada história. Sob o reinado dos famosíssimos reis Davi e Salomão, o território do Estado chegava até a extremidade do mar Vermelho em Asiongaber, no sul, e, no norte, ia além de Damasco, abrangendo parte da Síria. O atual Estado de Israel é, com seus vinte mil setecentos e vinte quilômetros quadrados, cerca de um quinto menor do que foi o reino de seus antepassados.
Nunca floresceram ali ofícios e indústrias cujos produtos fossem procurados pelo resto do mundo. Cortada por colinas e cadeias de montanhas, cujas cumeadas se erguem até mil metros de altura e mais, limitada ao sul e a leste por estepes e desertos, ao norte pelos montes do Líbano e pelo Hermon, a oeste pela costa plana, inadequada para portos de mar, era qual uma pobre ilha entre os grandes reinos do Nilo e do Eufrates, situada na fronteira entre dois continentes. A leste do delta do Nilo, termina a África. Além de um deserto árido de cento e cinqüenta quilômetros de largura, começa a Ásia e no seu limiar está a Palestina.
3.3.2. Sua história e sua importância
Se ela, no curso de sua história acidentada, foi continuamente envolvida nos grandes acontecimentos do mundo, isso se deve a sua situação. Canaã constitui o elo entre o Egito e a Ásia. A mais importante estrada comercial do mundo antigo atravessava esse país. Mercadores e caravanas, tribos e povos errantes percorriam esse caminho, por onde seguiriam mais tarde, também, os exércitos dos conquistadores. Egípcios, assírios, babilônios, persas, gregos e romanos, uns após outros, fizeram da terra e seus habitantes joguetes de seus interesses econômicos, estratégicos e políticos.
O gigante do Nilo foi movido por interesses comerciais quando, no terceiro milênio antes de Cristo, como primeira das grandes potências estendeu seus tentáculos até a velha Canaã.
“Conduzimos quarenta navios carregados de troncos de cedro. Construímos navios de madeira de cedro. Um, o navio Louvor dos Dois Países, com cinqüenta metros de comprimento. E dois navios de madeira de meru, com cinqüenta metros de comprimento, Fizemos as portas do palácio do rei de madeira de cedro”. Este é o teor do mais antigo registro de importação de madeira do mundo, expedido por volta de 2700 a.C. Os dados sobre esse transporte de madeira, feito durante o reinado do Faraó Snefru, estão gravados numa tabuinha de duro diorito preto, tesouro conservado no Museu de Palermo. Naquele tempo, as encostas do Líbano eram cobertas de espessos bosques. A madeira de lei de seus cedros e merus, espécie de conífera, era muito apreciada pelos faraós para suas construções.
Já quinhentos anos antes de Abraão florescia um comércio de importação e exportação nas costas de Canaã. Na terra do Nilo trocavam-se ouro e especiarias da Núbia, cobre e turquesa das minas do Sinai, linho e marfim por prata do Tauro, artefatos de couro de Biblos, vasos vidrados de Creta. Os ricos mandavam tingir suas vestes com púrpura nas grandes tinturarias da Fenícia. Para as damas da corte produziam um maravilhoso azul de lápis­lazúli, as pálpebras pintadas de azul eram a grande moda, e estíbio, cosmético para os cílios, altamente apreciados pelo mundo feminino.
Nas cidades marítimas de Ugarit (hoje Ras Shamra) e Tiro estabeleciam-se cônsules egípcios, a fortaleza marítima de Biblos era colônia egípcia, levantavam-se monumentos faraônicos nessas cidades e príncipes fenícios tomavam nomes egípcios.
3.3.3. Inscrição encontrada em um túmulo egípcio (história de Sinuhe)
Mas se as cidades costeiras ofereciam um aspecto de vida ativa, próspera, opulenta mesmo, a poucos quilômetros para o interior começava um mundo de vívidos contrastes. Os montes do Jordão eram um eterno foco de inquietação. Eram incessantes os ataques de nômades as populações sedentárias, as rebeliões e as contendas entre cidades. Como isso punha em perigo o caminho das caravanas ao longo da costa do Mediterrâneo, os egípcios tinham que organizar expedições punitivas para chamar à razão os desordeiros. A inscrição encontrada no túmulo do egípcio Uni dá-nos uma descrição minuciosa da maneira como foi organizada uma dessas expedições punitivas por volta de 2350 a.C. O comandante militar Uni recebe do Faraó Fiops I ordem de organizar um exército para atacar os beduínos asiáticos que invadiram Canaã. Eis o que ele informa sobre a campanha:
“Sua Majestade fez guerra aos habitantes da areia asiática e organizou um exército: em todas as regiões meridionais ao sul de Elefantina... por todo o norte... e entre os núbios de Jertet, os núbios de Mazói e os núbios de Jenam. Fui eu que fiz o plano de todas elas..”. O alto grau de disciplina das variegadas forças combatentes é devidamente elogiado. Assim ficamos sabendo as coisas cobiçáveis que havia em Canaã: “Nenhum deles roubou... sandálias de alguém que vinha pelo caminho... Nenhum deles tomou pão de ninguém na cidade; nenhum deles arrebatou uma cabra a ninguém”. O comunicado de Uni anuncia um grande sucesso e contém, além disso, valiosas informações sobre a terra: “O exército do rei voltou são e salvo depois de haver devastado o país dos habitantes da areia... depois de destruir as suas fortalezas... Depois de haver derrubado seus figueirais e vinhas... depois de aprisionar grandes multidões... Cinco vezes Sua Majestade me mandou percorrer a terra dos habitantes da areia por causa de suas rebeliões...”.
Assim entraram na terra dos faraós, como prisioneiros de guerra, os primeiros semitas, no Egito chamados com desprezo “habitantes da areia”.
Chu-Sebek, ajudante de ordens do rei egípcio Sesóstris III, escreveu quinhentos anos depois um comunicado de guerra, o qual, gravado na época em uma pedra comemorativa, conservou-se em Abidos, no curso superior do Nilo: “Sua Majestade marchou para o norte a fim de derrotar os beduínos asiáticos... Sua Majestade chegou a uma região com o nome de Sekmem... Então caiu Sekmem com a mísera Retenu...”.
Os egípcios designavam a terra da Palestina e Síria com o nome de “Retenu”. Sekmem é a cidade bíblica de Siquém, a primeira cidade de Canaã que Abraão encontrou em sua peregrinação (Gn 12.6).
Com a expedição de Sesóstris III por volta de 1850 a.C., encontramo-nos em plena época dos patriarcas. Entrementes, o Egito havia tomado toda Canaã; o país estava sob a autoridade dos faraós. Graças aos arqueólogos, o mundo possui um documento único dessa época, um tesouro da literatura antiga. O autor é um certo Sinuhe, do Egito. O lugar da ação: Canaã. A época: entre 1971 e 1982 a.C., no reinado do Faraó Sesóstris!
Sinuhe, personagem importante, frequentador da corte, vê-se envolvido numa intriga política. Temendo por sua vida, emigra para Canaã:
“...Quando dirigi meus passos para o norte, cheguei ao muro dos príncipes, construído para manter à distância os beduínos e dominar os vagabundos da areia (nome depreciativo que os egípcios gostavam de dar aos seus vizinhos nômades do leste e do nordeste. A esses pertenciam também as tribos ainda não sedentárias de Canaã e Síria). Escondi-me em um bosque com medo de ser visto pela guarda que estava de serviço na muralha. Só a noitinha me pus de novo a caminho. Quando aclarou... quando cheguei ao lago Amargo (lago ainda hoje assim chamado, localizado no istmo de Suez), caí. A sede me dominou e tinha a garganta em fogo. Disse eu: tal é o sabor da morte! Mas, reanimando o coração e reunindo todas as forças dos membros, ouvi o mugido de gado e avistei beduínos. O chefe deles, que tinha estado no Egito, reconheceu-me. Deu-me água, aqueceu leite para mim e eu fui com ele para sua tribo. O que eles me fizeram foi bom”.
A fuga de Sinuhe foi bem sucedida. Conseguiu transpor secretamente a muralha que existia na fronteira do reino dos faraós, no lugar exato onde passa hoje o Canal de Suez. Essa “muralha dos príncipes” tinha já então algumas centenas de anos. Um sacerdote a menciona já em 2650 a.C.: “Será construída a “muralha dos príncipes” para evitar a penetração dos asiáticos no Egito. Eles pedem água... para darem de beber aos seus rebanhos”. Mais tarde, os filhos de Israel deveriam transpor esse muro com freqüência; não havia outro caminho para o Egito. Abraão deve ter sido o primeiro deles a avistá-lo, quando, numa crise, se dirigiu para a terra do Nilo (Gn 12.10).
Sinuhe prossegue: “De uma terra fui passando a outra. Cheguei a Biblos (cidade marítima fenícia, ao norte da atual Beirute) e a Kedme (região deserta a leste de Damasco) e ali permaneci ano e meio. Ammiênchi (nome semita ocidental, amorita), príncipe do Alto Retenu (nome da região montanhosa ao norte da Palestina), chamou-me para junto de si e disse-me: “Tu estarás à vontade na minha casa e ouvirás falar egípcio”. Isso ele disse porque sabia quem eu era. Alguns egípcios (naquele tempo, havia emissários do faraó por toda parte em Canaã e na Síria) que viviam com ele tinham-lhe falado a meu respeito”.
Ficamos sabendo tudo o que se passou com o fugitivo egípcio no norte da Palestina, até os menores detalhes da vida cotidiana. “Ammiênchi disse-me: Não há dúvida de que o Egito é belo, mas tu ficarás aqui comigo e o que eu fizer por ti também será belo”.
Colocou-me acima de todos os seus filhos e casou-me com sua filha mais velha. Deu-me a escolher do melhor da terra que possuía e eu escolhi um trecho que ficava na fronteira de outro país. Era uma bela terra que tinha o nome de Jaa. Havia nela figos e uvas e mais vinho que água. Seu mel era copioso, abundante o seu azeite e de suas árvores pendia toda a espécie de frutas. Havia nela também trigo, cevada e rebanhos sem conta. Muito me veio da minha popularidade. Ele me fez príncipe de sua tribo na melhor parte do seu país. Diariamente eu bebia vinho, comia pão, carne cozida e ganso assado, além de caça do deserto que abatiam para mim, sem falar da que apanhavam os meus cães de caça... e leite, preparado de diversas maneiras. Assim passei muitos anos, e meus filhos se tornaram homens fortes, cada um deles o mais valente da sua tribo.
O mensageiro que, partindo do Egito, seguia para o norte, ou viajava para o sul a caminho da corte, detinha-se em minha casa (isso permite supor um comércio ativo entre o Egito e a Palestina); eu dava asilo a todo mundo. Dava água aos que tinham sede, conduzia os transviados o caminho certo, protegia os que eram assaltados.
“Quando os beduínos partiam para combater os príncipes de outras terras, eu organizava suas campanhas. Pois o príncipe de Retenu confiou-me durante muitos anos o comando de seus guerreiros e em cada terra que eu entrava, fazia... e... de suas pastagens e suas fontes. Eu capturava os rebanhos, expulsava as populações e apoderava-me das provisões. Matava os adversários com minha espada e o meu arco (o arco é a arma típica do Egito), valendo-me da minha destreza e de meus golpes hábeis”.
Das muitas aventuras que passou entre os “asiáticos”, a que mais parece ter impressionado Sinuhe foi um duelo de vida ou morte que ele descreve em seus mínimos detalhes. Um “valentão de Retenu” zombou dele em sua tenda e desafiou-o para a luta. Ele tinha a certeza de que mataria Sinuhe e assim se apossaria de seus rebanhos e propriedades. Porém Sinuhe, que, como egípcio, fora desde a juventude adestrado no manejo do arco, matou com uma flechada no pescoço o “valentão”, que avançou para ele armado de escudo, punhal e lança. A presa que resultou desse duelo tornou-o ainda mais rico e poderoso.
Já muito velho, foi acometido pela saudade da pátria. Uma carta de seu Faraó Sesóstris I convidava-o a voltar: “...Põe-te a caminho e volta para o Egito a fim de tornares a ver a corte em que foste criado e beijares a terra junto as duas grandes portas... Pensa no dia em que te levarão a sepultura e serás venerado. Serás preparado à noite com óleo e com faixas da deusa Tait (embalsamamento). No dia do teu sepultamento, terás um cortejo. O caixão será de ouro e a cabeça de lápis-lazúli, e serás colocado no esquife. Serás puxado por bois, a tua frente marcharão cantores e a porta do teu túmulo será dançada a dança dos anões. Serão recitados ofertórios para ti e haverá sacrifícios no teu altar. Tuas colunas serão construídas de pedra calcária entre as dos filhos de rei. Não permitirei que morras em terras estrangeiras e sejas sepultado pelos asiáticos e envolto numa pele de carneiro”.
O coração de Sinuhe se enche de júbilo. Decide-se imediatamente pelo regresso, lega seus haveres aos filhos e nomeia o filho mais velho “chefe da tribo”. Tal era o costume entre os nômades semitas. Assim era também entre Abraão e seus descendentes. Era o direito hereditário dos patriarcas, que depois se tornou lei em Israel. “E toda a minha tribo e todos os meus haveres passaram a pertencer-lhe, minha gente e todos os meus rebanhos, meus frutos e todas as árvores doces (tamareiras). Então parti para o sul”.
Até as fortalezas do Egito foi escoltado por beduínos, daí uma delegação do faraó levou-o de navio até a capital situada ao sul de Mênfis.
Que contraste! De uma tenda para o palácio do rei, da vida simples e arriscada para a segurança e o luxo de uma metrópole altamente civilizada. “Ali encontrei Sua Majestade sentado no grande trono do salão de ouro e prata. Depois foram chamados os filhos do rei. Sua Majestade disse à rainha: “Vê Sinuhe que volta feito asiático e se tornou beduíno!” Ela soltou um grande grito e os filhos do rei gritaram todos ao mesmo tempo. Disseram a Sua Majestade: “Isso não é verdade, meu senhor rei”. Sua Majestade respondeu: “É de fato verdade”!
Fui conduzido para um palácio principesco, escreve Sinuhe entusiasmado, no qual havia coisas maravilhosas e até um quarto de banho... havia lá, da casa do tesouro, vestes reais de linho, mirra e o óleo mais fino.
Funcionários do palácio, que o rei estimava, estavam em cada um dos aposentos, e cada cozinheiro fazia o seu dever. Foram tirados os anos do meu corpo. Cortaram-me a barba e pentearam-me o cabelo. Um peso foi abandonado à terra estrangeira (isto é, a sujeira que lhe tiraram ao lavá-lo) e as vestes toscas aos nômades da areia. Envolveram-me em fino linho e ungiram-me o corpo com o melhor óleo do país. Tornei a dormir numa cama!... Assim vivi honrado pelo rei, até que chegou o dia do passatempo.
3.3.4. Era um best seller sobre Canaã
A história de Sinuhe não existia apenas em um exemplar. Foram encontrados diversos. Devia ser uma obra muito procurada, pois mereceu várias “edições”. Sua leitura deve ter deliciado o público não só do médio mas também do novo império do Egito, como se deduz pelas cópias encontradas. Foi, por assim dizer, um best seller, o primeiro do mundo, e precisamente sobre Canaã.
Os pesquisadores que o desenterraram no começo deste século ficaram tão entusiasmados com ele como os contemporâneos de Sinuhe há quatro mil anos, mas tomaram-no por uma história bem imaginada, se bem que destituída de toda realidade. Assim se tornou a história de Sinuhe uma mina para os egiptólogos estudiosos da escritura, mas sem sentido para os historiadores. E, enquanto se discutia sobre o sentido do texto, sobre os signos e a sintaxe, o conteúdo da história ia caindo no esquecimento.
3.4. A história de Sinuhe e a Bíblia
Entretanto, Sinuhe foi reabilitado. Hoje, sabemos que o egípcio escreveu uma história verdadeira sobre a Canaã daquele tempo, a Canaã por onde, possivelmente, vagueava Abraão. Devemos a textos hieroglíficos sobre campanhas egípcias os primeiros testemunhos sobre Canaã. Eles concordaram perfeitamente com a descrição de Sinuhe. Por outro lado, o relato desse aristocrata egípcio concorda em algumas passagens quase literalmente com certos versículos da Bíblia muito citados. Porque o Senhor teu Deus te introduzirá numa terra boa (Dt 8.7). “Era uma bela terra”, diz Sinuhe. Terra continua, a Bíblia, de trigo, de cevada, de vinhas, onde nascem figueiras... “Ali havia cevada e trigo, havia figos e uvas”, conta Sinuhe. E onde a Bíblia diz: Uma terra de azeite e de mel, onde, sem nenhuma escassez, comerás o teu pão, diz o texto egípcio: “Seu mel era copioso e abundante o seu azeite. Diariamente eu comia pão”.
A descrição que Sinuhe faz de seu modo de vida entre os amoritas, na tenda, cercado de seus rebanhos e envolvido em lutas com orgulhosos beduínos, que ele precisa afastar de suas pastagens e de suas fontes, corresponde a descrição bíblica da vida dos patriarcas. Também Abraão e seu filho Isaac tem contendas por causa das suas fontes (Gn 21.25; 26.15, 20).
Os resultados de conscienciosas pesquisas comprovam melhor que tudo o cuidado e a precisão com que a Bíblia descreve as condições de vida naquele tempo. Pois a abundância de documentos e monumentos recém­descobertos permite-nos fazer hoje “uma reconstituição plástica e fiel das circunstâncias de vida em Canaã na época do advento dos patriarcas”.

4-AS TERRAS DE CANAÃ

4.1. Canaã à quase quatro milênios atrás
Canaã, por volta de 1900 a.C., era apenas esparsamente povoada. Era, a bem dizer, uma verdadeira terra de ninguém. Aqui e além, no meio de campos cultivados, erguia-se um burgo fortificado. Nas encostas circunjacentes havia vinhedos, figueiras e palmeiras. Os habitantes viviam em permanente estado de alerta, as povoações, pequenas e muito isoladas, eram objeto de audaciosos assaltos dos nômades. Súbita e inesperadamente, os nômades surgiam, derrubavam tudo, levando o gado e as colheitas. Com a mesma rapidez com que surgiam, desapareciam, e não havia meio de encontrá-los nas vastas planícies de areia ao sul e a leste. Era incessante a luta entre os lavradores e criadores de gado que se tornaram sedentários e as tribos de salteadores que não conheciam habitação fixa e cujo teto era uma tenda de pele de cabra aberta em qualquer parte ao ar livre sob o vasto céu do deserto. Por essa região insegura vagueou Abraão com Sara, sua mulher, Ló, seu sobrinho, sua gente e seus rebanhos.
E tendo lá chegado, Abraão atravessou este país até o lugar de Siquém, até o vale ilustre... E o Senhor apareceu a Abraão, e disse-lhe: eu darei esta terra aos teus descendentes. Naquele lugar edificou um altar ao Senhor, que lhe tinha aparecido. E, passando dali ao monte, que estava ao oriente de Betel, aí levantou a sua tenda, tendo Betel a ocidente, e Hai a oriente. Aí edificou também um altar ao Senhor, e invocou o seu nome. Abraão continuou a sua viagem, andando e avançando para o meio-dia (Gn 12.5-9).
4.2. Mais inscrições, desta vez em vasos e estatuetas
Em 1920, foram encontrados no Nilo alguns cacos notáveis, a maioria deles procedente de Tebas e de Sacara. Arqueólogos berlinenses adquiriram alguns, outros foram para Bruxelas e o resto foi enviado para o Museu do Cairo. Manejados por mãos cuidadosas de especialistas, esses fragmentos transformaram-se de novo em vasos e estatuetas, e as inscrições que neles apareceram foram o que mais surpreendeu. Esses textos estão cheios de terríveis pragas e maldições, como esta: “Morte a todo aquele que disser más palavras e conceber maus pensamentos, a todo aquele que pronunciar maldições, que praticar más ações e tiver maus propósitos”. Estas e outras ameaças se dirigiam de preferência a cortesãos e nobres egípcios, mas também a governadores de Canaã e da Síria.
4.3. É encontrada a cidade de Siquém
No coração de Samaria, há um vale extenso e plano, acima do qual se erguem os altos cumes do Garizim e do Ebal. Campos bem cultivados circundam Askar, uma aldeiazinha da Jordânia. Perto dessa aldeia, ao fundo do Garizim, foram encontradas as ruínas de Siquém.
Foi obra do arqueólogo alemão Profº. Ernst Sellin. Em escavações que duraram dois anos, 1913 e 1914, vieram a luz do dia camadas da mais alta antiguidade.
Sellin encontrou restos de muros do século XIX a.C. Pouco a pouco foi tomando forma um gigantesco muro circundante com sólidos alicerces, tudo toscamente talhado em blocos de rocha feldspática. Alguns desses blocos mediam até dois metros de espessura. Os arqueólogos designam esse tipo de construção com o nome de “muros ciclópicos”. O muro era reforçado por um talude. Os construtores de Siquém não só tinham guarnecido a muralha de dois metros de largura com pequenas torres, mas haviam-lhe sobreposto ainda uma muralha de terra.
Foram também surgindo dos escombros as ruínas de um palácio. O acanhado pátio quadrangular, rodeado por uns poucos compartimentos de grossas paredes, mal poderia merecer o nome de palácio. Como Siquém, eram todas as cidades de Canaã cujos nomes temos ouvido tantas vezes e diante das quais os israelitas sentiram tanto medo no princípio. Salvo poucas exceções, conhecemos todas as construções notáveis daquele tempo. A maioria só foi relevada pelas escavações nas três últimas décadas. Durante milênios, ficaram enterradas e agora se apresentam completas aos nossos olhos, e entre elas as muitas cidades cujos muros os patriarcas devem ter visto: Bétel e Mispa, Gerar e Lakish, Gézer e Ghat, Ascalão e Jericó. Se alguém quisesse escrever a história da construção de cidades e fortalezas de Canaã, nao teria grande dificuldade em fazê-lo, dada a abundância de material existente até o terceiro milênio antes de Cristo.
4.4. Como era Canaã e suas cidades
As cidades de Canaã eram burgos fortificados, lugares de refúgio em tempos de guerra, quer devido a ataques súbitos de tribos nômades, quer devido a hostilidades dos cananeus entre si. As poderosas muralhas de pedra circundavam sempre uma pequena superfície pouco maior que a Praça de São Pedro de Roma. É verdade que cada cidade fortaleza tinha abastecimento de água, mas não havia nenhuma que pudesse abrigar permanentemente uma população numerosa. Em comparação aos palácios e metrópoles da Mesopotâmia ou do Nilo, eram insignificantes. Em sua maioria, as cidades de Canaã caberiam comodamente no palácio dos reis de Mari.
Em Tell el Hesi, indubitavelmente a bíblica Eglon, a antiga fortaleza circundava uma superfície de meio hectare apenas. Em Tell el Safy (antiga Ghat), cinco hectares, em Tell el Mutsellim (outrora Megido), mais ou menos a mesma coisa, em Tell el Zakariyah (a bíblica Aseca), menos de quatro hectares, Gézer, na estrada de Jerusalém para o porto de Jafa, abrangia nove hectares de superfície construída. Mesmo na reconstruída Jericó, o espaço cercado pela fortificação interior, a acrópole propriamente, cobria apenas uma superfície de dois hectares. E, contudo, Jericó era uma das fortificações mais poderosas do país.
Lutas encarniçadas entre os chefes de tribos estavam na ordem do dia. Faltava a mão ordenadora da autoridade. Cada chefe mandava em seu território. Ninguém mandava nele, que fazia o que bem lhe aprazia. A Bíblia chamava os cabeças de tribo reis e, quanto ao que se referia ao poder e independência, tinha razão.
Entre os chefes de tribo e seus súditos havia uma relação patriarcal. Dentro dos muros viviam apenas o chefe, as famílias patrícias, os representantes do faraó e os comerciantes ricos. Só eles moravam em casas sólidas e firmes, em geral de um andar, constituídas de quatro a seis cômodos dispostos em volta de um pátio aberto. Casas patrícias com um segundo andar eram relativamente raras. O resto da população (gente de séquito, escravos, servos) morava em rudes choupanas de barro ou folhagem, fora dos muros. Deviam levar uma vida miserável.
Desde os tempos mais primitivos, dois caminhos se cruzavam na planície de Siquém. Um deles descia para o vale do Jordão. O outro seguia para o sul, subindo as montanhas solitárias, até Bétel e, mais para lá, passando por Jerusalém, até o Neguev, o país do meio-dia da Bíblia. Quem tomava por este último encontrava apenas algumas povoações na região montanhosa central de Samaria e Judá: Siquém, Bétel, Jerusalém e Hebron. Quem preferia o caminho mais cômodo encontrava as cidades maiores e as fortalezas mais importantes dos cananeus, situadas nos opulentos vales da planície de Israel, no fértil litoral de Judá e em meio da vegetação luxuriante do vale do Jordão.
4.4.1. Abraão e seu caminho por Canaã
Para sua primeira viagem de exploração através da Palestina, Abraão escolheu o caminho solitário e penoso que seguia para o sul, pelas montanhas. Pois aí as encostas cobertas de florestas ofereciam ao forasteiro proteção e abrigo e ricos pastos nas clareiras para o gado que conduzia. Mais tarde, ele e sua gente tornaram a seguir esses mesmos caminhos difíceis das montanhas e o mesmo fizeram os outros patriarcas diversas vezes, em uma e outra direção. Por mais que os férteis vales da planície o tentassem constantemente, Abraão preferiu sempre o caminho da montanha. Pois com os arcos e fundas de sua gente não estaria a altura de se medir com os cananeus, armados de espadas e lanças. Assim, Abraão não se atrevia a deixar as montanhas.
4.5. Sodoma e Gomorra
“Então o Senhor, da sua parte, fez chover do céu enxofre e fogo sobre Sodoma e Gomorra. E Abraão levantou-se de madrugada, e foi ao lugar onde estivera em pé diante do Senhor; e, contemplando Sodoma e Gomorra e toda a terra da planície, viu que subia da terra fumaça como a de uma fornalha (Gn 19.24, 27-28)”.
4.6. Abraão e Ló separam-se
Após sua volta do Egito, Abraão e Ló separaram-se. “E a terra não tinha capacidade para poderem habitar juntos”, conta a Bíblia, “porque seus bens eram muito grandes. Daqui nasceu uma contenda entre os pastores dos rebanhos de Abraão e os de Ló. Disse, pois, Abraão a Ló: Peço-te que não haja contendas entre mim e ti, nem entre os meus pastores e os teus pastores, porque somos irmãos. Eis diante de ti todo o país; rogo-te que te apartes de mim; se fores para a esquerda, eu tomarei a direita; se escolheres a direita, eu irei para a esquerda” (Gn 13.6-9).
Abraão deixou que Ló escolhesse. Despreocupado, como geralmente são os jovens, Ló optou pela melhor parte, a região do Jordão. Ela era “... toda regada de água” e abençoada por uma exuberante vegetação tropical, “como o paraíso do Senhor e como o Egito até Segor” (Gn 13.10).
4.6.1. Ló vai para Sodoma
Das cadeias de montanhas cobertas de bosques, no coração da Palestina, Ló desceu para leste, entrou com sua gente e seus rebanhos no vale do Jordão ao sul e, finalmente, levantou suas tendas em Sodoma. Ao sul do mar Morto havia uma planície fertilíssima, o “Vale de Sidim, onde agora é o mar salgado” (Gn 14.3). A Bíblia enumera cinco cidades nesse vale: Sodoma, Gomorra, Adama, Seboim e Segor (Gn 14.2). Ela tem notícia também de uma guerra na história dessas cinco cidades: “Naquele tempo sucedeu” que quatro reis “fizeram guerra contra Bara, rei de Sodoma, e contra Bersa, rei de Gomorra, e contra Senaar, rei de Adama, e contra Semeber, rei de Seboim, e contra o rei de Bala, isto é, Segor” (Gn 14.2). Doze anos haviam os reis do vale de Sidim sido tributários do Rei Codorlaomor. No décimo terceiro, rebelaram-se. Codorlaomor pediu auxílio a três reis que estavam a ele coligados. Uma expedição punitiva chamaria os rebeldes a razão. Na luta entre os nove reis, Codorlaomor e seus aliados derrotaram os reis das cinco cidades do vale de Sidim, incendiando e saqueando suas capitais.
Ló encontrava-se entre os prisioneiros dos reis estrangeiros. Foi libertado por seu tio Abraão (Gn 14.12-16), que, com seus servos, seguiu qual uma sombra o exército dos reis que voltavam para suas terras. De um esconderijo seguro, observava e estudava tudo atentamente, sem ser notado. Abraão deu tempo ao tempo. Só perto de Dã, na fronteira norte da palestina, pareceu-lhe que havia chegado a oportunidade favorável. De repente, sob a proteção de uma noite escura, Abraão atacou com seus servos a retaguarda do exército e, na confusão que se seguiu, pôde libertar Ló. Só quem não conhece a tática dos beduínos pode ouvir com ceticismo essa narrativa.
Entre os habitantes dessa região existe até hoje memória dessa expedição. Ela aparece no nome de um caminho que segue, partindo do lado leste do mar Morto, para o norte, até a velha terra de Moab. Os nômades da Jordânia conhecem-no muito bem. Entre os naturais chama-se curiosamente “estrada dos reis”. Na Bíblia, nós o encontramos novamente, aqui porém chamado “estrada pública” ou “caminho ordinário”, quando os filhos de Israel queriam passar por Edom a caminho da “Terra Prometida” (Nm 20.17-19). No alvorecer da nossa era, os romanos utilizaram e reconstruíram a “estrada dos reis”. Partes dela pertencem hoje a rede de estradas do novo Estado da Jordânia. Perfeitamente visível de avião, o velho caminho atravessa a região, assinalado por uma faixa escura.
4.6.2. A destruição de Sodoma e Gomorra

Disse, pois, o Senhor: O clamor de Sodoma e Gomorra aumentou, e o seu pecado agravou-se extraordinariamente. Fez, pois, o Senhor da parte do Senhor chover sobre Sodoma e Gomorra enxofre e fogo do céu; e destruiu essas cidades, e todo o país em roda, todos os habitantes da cidade, e toda a verdura da terra. E a mulher de Ló, tendo olhado para trás, ficou convertida numa estátua de sal. E viu que se elevavam da terra cinzas inflamadas, como o fumo de uma fornalha (Gn 18.20; 19.24, 26, 28).
A sinistra força dessa narrativa bíblica tem impressionado profundamente os ânimos dos homens em todos os tempos. Sodoma e Gomorra tornaram-se símbolos de vício e iniquidade e sinônimos de aniquilação completa. Incessantemente, o terrível e inexplicável acontecimento deve ter inflamado a fantasia dos homens, como o demonstram numerosos relatos dos tempos passados. Devem ter ocorrido coisas estranhas e absolutamente inacreditáveis no mar Morto, o mar salgado, onde, de acordo com a Bíblia, ocorreu a catástrofe.
Segundo uma tradição, durante o cerco de Jerusalém, no ano 70 da nossa era, um general romano, Tito, condenou alguns escravos a morte. Submeteu­os a um breve julgamento e mandou encadeá-los todos juntos e jogá-los no mar, próximo ao monte de Moab. Os condenados, porém, não se afogaram. Repetidamente foram jogados ao mar e todas as vezes, como cortiças, vinham dar em terra. O inexplicável fenômeno impressionou Tito de tal modo que ele acabou por perdoar os pobres criminosos. Flávio Josefo, historiador judeu que viveu os últimos anos da sua vida em Roma, cita repetidamente um “lago de asfalto”. Os gregos falavam com insistência em gases venenosos que se desprenderiam por toda parte nesse mar, e os árabes diziam que havia muito nenhuma ave conseguia voar até a outra margem. Segundo eles, ao sobrevoá-lo, as aves se precipitavam subitamente na água, mortas.
4.7. Exploração do Mar Morto
Essas e outras histórias tradicionais similares eram bem conhecidas, mas até uns cem anos atrás faltava todo e qualquer conhecimento preciso sobre o estranho e misterioso mar da Palestina. Nenhum cientista o tinha visto e explorado ainda. Foram os Estados Unidos que, no ano de 1848, tomaram a iniciativa, equipando uma expedição para estudar o enigmático mar Morto. Num dia de outono desse ano, a praia em frente a cidadezinha de Akka, quinze quilômetros ao norte de Haifa, ficou negra de homens ativamente ocupados numa estranha manobra.
De um navio ancorado ao largo, W. F. Lynch, geólogo e chefe da expedição, havia mandado desembarcar dois barcos metálicos, que nesse momento estavam sendo cuidadosamente amarrados em carros de altas rodas. Puxados por uma longa fileira de cavalos, puseram-se a caminho. Ao fim de três semanas e após dificuldades incríveis, foi terminado o transporte através das terras do sul da Galiléia. Os barcos foram lançados a água no lago Tiberíades. As medidas de altura tomadas por Lynch no lago de Genesaré produziram a primeira grande surpresa dessa viagem. A princípio, ele pensou tratar-se de um erro, mas a verificação confirmou o resultado. A superfície do lago de Genesaré, mundialmente conhecido pela história de Jesus, ficava duzentos e oito metros abaixo da superfície do Mediterrâneo! A que altura nasceria o Jordão, que atravessa esse lago?
Dias depois, W. F. Lynch encontrava-se numa alta encosta do nevado Hermon. E entre os restos de colunas e portais desmantelados surgiu a pequena aldeia de Banias. Árabes conhecedores do terreno conduziram-no através de um espesso bosque de espirradeiras até uma cova meio encoberta por calhaus na íngreme encosta calcária do Hermon. Da escuridão dessa cova brotava com força, gorgolejando, um jorro de água límpida. Era uma das três nascentes do Jordão. Os árabes chamam ao Jordão Cheri ’at el Kebire, “Grande Rio”. Ali estivera o antigo Paníon, ali Herodes construíra um templo de Pã em honra de Augusto. Junto a gruta do Jordão, havia uns nichos em forma de concha. Ainda se pode ler ali claramente a inscrição grega: “Sacerdote de Pã”. No tempo de Jesus Cristo, o deus grego dos pastores era venerado junto as fontes do Jordão. O deus com pés de cabra levava aos lábios a flauta, como se quisesse modular uma canção para acompanhar o Jordão em sua longa viagem. A cinco quilômetros daquela fonte, para os lados do oeste, ficava a bíblica Dã, o sítio mais setentrional do país, repetidamente citada na Bíblia. Também ali, na encosta sul do Hermon, brotava uma nascente de águas claras. Uma terceira fonte desce de um vale situado mais acima. O fundo do vale fica pouco acima de Dã, quinhentos metros acima do nível do mar.
Onde o Jordão atinge o pequeno lago Huleh, vinte quilômetros ao sul, o leito já baixou até dois metros acima do nível do mar. Depois o rio se precipita abruptamente por um espaço de pouco mais de dez quilômetros até o lago de Genesaré. Em seu curso, das vertentes do Hermon até esse local, num trecho de quarenta quilômetros apenas, desceu setecentos metros.
Do lago Tiberíades, os membros da expedição americana desceram o Jordão em dois barcos de metal, percorrendo seus intermináveis meandros. Gradualmente a vegetação ia-se tornando mais esparsa. Só nas margens do rio ainda havia moitas espessas. Sob o sol tropical, surgiu a direita um oásis -Jericó. Pouco depois chegaram ao seu destino. Entre penhascos talhados quase a prumo, estendia-se a sua frente a vasta superfície do mar Morto.
A primeira coisa que fizeram foi tomar um banho. Os homens que saltaram na água tiveram a impressão de que vestiam salva-vidas, tal a maneira como foram impelidos para cima. As antigas narrativas não haviam, pois, mentido. Naquele mar, ninguém podia se afogar. O sol escaldante secou a pele dos homens quase instantaneamente. A fina camada de sal que a água deixara em seus corpos fazia-os parecerem completamente brancos. Ali não havia moluscos, peixes, algas, corais... naquele mar jamais vogara um barco de pesca. Não havia frutos do mar nem frutos da terra. Suas margens eram desoladas e nuas. As costas do mar e as faces dos rochedos lá no alto, cobertas de enormes camadas de sal endurecido, brilhavam ao sol como diamantes. A atmosfera estava saturada de cheiros acres e penetrantes. Cheirava a petróleo e enxofre. Sobre as ondas flutuavam manchas oleosas de asfalto -a que a Bíblia chama betume (Gn 14.10). Nem mesmo o azul brilhante do céu ou o sol forte conseguia dar vida a paisagem hostil.
Os barcos americanos cruzaram o mar Morto durante vinte e dois dias. Tomavam amostras de água, analisavam-nas, e a sonda era lançada ao fundo continuamente. Verificaram que a foz do Jordão, no Mar Morto, ficava trezentos e noventa e três metros abaixo do nível do mar! Se houvesse uma comunicação com o Mediterrâneo, o Jordão e o lago de Genesaré, distante cento e cinco quilômetros, desapareceriam. Um imenso mar interior se estenderia até as margens do lago Huleh!
“Quando uma tempestade irrompe naquela bacia de penhascos”, observa Lynch; “as ondas golpeiam os costados do barco como marteladas, mas o próprio peso da água faz com que em pouco tempo se aplaquem, depois que o vento cessa”.
Através do relatório da expedição, o mundo ficou sabendo pela primeira vez de dois fatos espantosos. O mar Morto atinge quatrocentos metros de profundidade; o fundo do mar fica, portanto, cerca de oitocentos metros abaixo da superfície do Mediterrâneo. A água do mar Morto contém cerca de trinta por cento de elementos componentes sólidos, a maior parte constituída por cloreto de sódio, isto é, de sal de cozinha. Os oceanos contêm apenas de quatro a seis por cento de sal. Nessa bacia de setenta e seis quilômetros de comprimento por dezessete de largura desembocam o Jordão e muitos rios menores. Sob o sol escaldante, evaporam-se, dia após dia, oito milhões de metros cúbicos de água de sua superfície. As matérias químicas que esses rios conduzem permanecem nessa bacia de mil duzentos e noventa e dois quilômetros quadrados de superfície.

4.7.1. A Procura de Sodoma e Gomorra
Só no começo deste século, com as escavações realizadas no resto da Palestina, foi despertado também o interesse por Sodoma e Gomorra. Os exploradores dedicaram-se a procura das cidades desaparecidas que nos tempos bíblicos estariam situados no vale de Sidim.
Na extremidade a sudeste do mar Morto, encontram-se os restos de uma grande povoação. Esse sítio ainda hoje é chamado Segor. Os pesquisadores se regozijaram, pois Segor era uma das cinco cidades ricas do vale de Sidim que se recusaram a pagar tributo aos quatro reis estrangeiros. Mas as escavações experimentais realizadas trouxeram apenas decepção. Assim, há dúvidas ainda se Segor é o mesmo sítio citado na Bíblia.
A verificação das ruínas descobertas revelou tratar-se de restos de uma cidade que floresceu no princípio da Idade Média. Da antiga Segor do rei de Bala (Gn 14.2) e das capitais vizinhas não se encontrou vestígio. Entretanto, diversos indícios encontrados nos arredores da Segor medieval sugerem a existência de uma povoação muito densa naquele país em época muito anterior.
Na costa oriental do mar Morto, estende-se mar adentro, como uma língua de tena, a península de El-Lisan. Em árabe, “el-Lisan” significa “a língua”. A Bíblia menciona-a expressamente quando se refere a partilha do país depois da conquista. As fronteiras da tribo de Judá são traçadas com precisão. Para isso Josué dá uma estranha característica a fim de indicar os limites do sul: “O seu princípio é desde a ponta do mar salgado, e desde a língua que ele forma, olhando para o meio-dia” (Js 15.2).
Uma narrativa romana refere-se a essa língua de terra numa história que sempre foi injustamente considerada com grande ceticismo. Dois desertores fugiram para essa península. Os legionários que os perseguiram procuraram nos em vão por toda parte. Quando finalmente os avistaram, era tarde demais. Os desertores já escalavam os altos rochedos da outra margem... Tinham atravessado o mar a vau!
Evidentemente o mar naquela época era mais raso que hoje. Invisível, o fundo ali forma uma dobra gigantesca que divide o mar em duas partes. A direita da península, desce a prumo até quase quatrocentos metros de profundidade. À esquerda da península, o fundo é extraordinariamente raso. Medições feitas nos últimos anos acusaram profundidades de quinze a vinte metros apenas.

4.7.2. O que disseram os geólogos
Os geólogos tiraram dessas descobertas e observações outra interpretação, que poderia explicar a causa e fundamento da narrativa bíblica da aniquilação de Sodoma e Gomorra.
A expedição americana dirigida por Lynch foi a primeira que, em 1848, deu a notícia da grande descida do Jordão em seu breve curso pela Palestina. O fato de, em sua queda, o leito do rio descer muito abaixo do nível do mar é, como só pesquisas posteriores comprovaram, um fenômeno geológico singular. “É possível que haja em algum outro planeta coisa semelhante ao que ocorre no vale do Jordão; no nosso não existe”, escreve o geólogo George Adam Smith em sua obra “A geografia histórica da Terra Santa”. “Nenhuma outra parte não submersa da nossa Terra fica mais de cem metros abaixo do nível do mar”.
O vale do Jordão é apenas parte de uma fenda imensa na crosta da nossa Terra. Hoje já se conhece sua extensão exata. Começa muitas centenas de quilômetros ao norte da fronteira da Palestina nas faldas da montanha do Tauro, na Ásia Menor. Ao sul, vai desde a costa sul do mar Morto, atravessa o deserto de Arábia até o golfo de Ácaba e só vai terminar do outro lado do mar Vermelho, na África. Em muitos lugares dessa imensa depressão há vestígios de antiga atividade vulcânica. Nos montes da Galiléia, nos planaltos da Jordânia oriental, nas margens do afluente Jabbok, no golfo de Ácaba, há basalto negro e lava.
Será que Sodoma e Gomorra afundaram quando (acompanhado por terremotos e erupções vulcânicas) um pedaço do chão do vale ruiu um pouco mais? E o mar Morto se alongou naquela época em direção ao sul?
A ruptura da terra liberou as forças vulcânicas contidas há muito tempo nas profundezas da greta. Na parte superior do vale do Jordão, junto a Basan, erguem-se ainda hoje as crateras de vulcões extintos, e sobre o terreno calcário há grandes campos de lava e enormes camadas de basalto. Desde tempos imemoriais, os territórios ao redor dessa depressão são sujeitos a terremotos. Repetidamente temos notícia deles, e a própria Bíblia fala a respeito. Como para confirmar a teoria geológica do desaparecimento de Sodoma e Gomorra, escreve textualmente o sacerdote fenício Sanchuniathon em sua História antiga redescoberta: “O vale de Sidim” afundou e se transformou em mar, sempre fumegante e sem peixe, exemplo de vingança e morte para os ímpios”.
4.7.3. A destruição não foi causada por vulcões
Antes de mais nada, convém frisar que está fora de qualquer cogitação a hipótese segundo a qual a depressão do rio Jordão teria se originado somente há uns quatro milênios, pois, conforme as pesquisas mais recentes, a origem dessa depressão remontaria ao Oligoceno (Terciário, entre o Eoceno e o Mioceno). Portanto, neste caso é preciso calcular não em milhares, mas sim milhões de anos. Embora, em tempos posteriores, fosse comprovada uma atividade vulcânica mais intensa, relacionada com a abertura da depressão do rio Jordão, mesmo assim chegamos a parar no Plistoceno, encerrado há uns dez mil anos, e ficamos longe do chamado “período dos patriarcas”, convencionalmente datado no terceiro ou até segundo milênio antes de Cristo. Ademais, justamente ao sul da península de Lisan, onde supostamente teria acontecido o ocaso de Sodoma e Gomorra, perdem-se todos os vestígios de erupções vulcânicas. Em outras palavras, naquela área as condições geológicas não permitem comprovar uma catástrofe ocorrida em época geológica bem recente, que destruiu cidades e foi acompanhada por violentas erupções vulcânicas.
4.7.4. A mulher de Ló virou estátua de sal
E a mulher de Ló, “tendo olhado para trás, ficou convertida em estátua de sal” (Gn 19.26).
Quanto mais nos aproximamos da extremidade sul do mar Morto, mais deserta e selvagem se torna a região e mais sinistro e impressionante é o cenário das montanhas. Um eterno silêncio paira nos montes, cujas vertentes escalavradas pendem a prumo sobre o mar, onde se reflete sua brancura cristalina. A inaudita catástrofe deixou seu selo indelével de tristeza e desolação naquelas paragens. Raramente passa por algum daqueles vales fundos e escarpados um grupo de nômades a caminho do interior.
Onde terminam as águas pesadas e oleosas, ao sul, termina também, bruscamente, o impressionante cenário de rochedos, dando lugar a uma região pantanosa de água salgada. O solo avermelhado é riscado por inúmeros ribeiros, perigosos para o viajante incauto. Essa baixada estende­se a grande distância para o sul até o deserto vale de Arabá, que chega até o mar Vermelho.
A oeste da costa sul, na direção do país do meio-dia bíblico, o Neguev, estende-se um espinhaço de quarenta e cinco metros de altura e quinze quilômetros de comprimento na direção norte-sul. O sol, batendo nas suas encostas, produz reflexos de diamante. É um estranho fenômeno da natureza. A maior parte dessa pequena serra é constituída de puros cristais de sal. Os árabes chamam-Ihe Djebel Usdum, nome antiquíssimo em que está contida a palavra “Sodoma”. A chuva desloca numerosos blocos de sal que rolam até a base. Esses blocos tem formas caprichosas e alguns deles são eretos como estátuas. As vezes em seus contornos a gente pensa distinguir, de repente, formas humanas.
As estranhas estátuas de sal trazem logo a lembrança a história da Bíblia sobre a mulher de Ló, que foi transformada em estátua de sal. E tudo o que está próximo ao mar salgado ainda hoje se cobre em pouco tempo com uma crosta de sal.
4.7.5. Outros achados arqueológicos
Foi apenas recentemente que a escavação do Tell el-Mardikh, na Síria setentrional (ao sul de Alepo), conduzida pelo cientista italiano Giovanni Pettinato, causou sensação. Ali, Pettinato achou Ebla, uma cidade do terceiro milênio antes da era cristã, e a esse respeito foram três os fatos que causaram espécie. Primeiro, em tempos pré-históricos, existia ali uma civilização avançada, com uma estrutura social altamente diferenciada para a época; segundo, Ebla possuía um rico arquivo de tabuinhas de barro. Como costuma acontecer com todos esses arquivos, sua descoberta promete uma série de conhecimentos novos, quando, por outro lado, tais noções recém-adquiridas bem poderiam abalar algumas das doutrinas até então consideradas certas e garantidas. Recentemente, um colega alemão do Profº. Pettinato comentou: “Depois de estudados e explorados os textos, provavelmente poderemos esquecer os resultados obtidos em todo um século de pesquisas do antigo Oriente”. Contudo, a terceira e, no caso, a mais importante sensação causada pela descoberta do Profº. Pettinato prende-se ao fato de os textos de Ebla conterem nomes que nos são familiares pela leitura da Bíblia e, assim, aparecem no terceiro milênio antes de Cristo! Ali são mencionados tanto o nome de Abraão quanto os nomes das cidades pecadoras de Sodoma e Gomorra, aniquiladas pelo fogo, de Adma e Zeboim, no mar Morto. Aliás, quanto a isso, há um certo ceticismo entre alguns colegas do Profº. Pettinato. Será que ele interpretou corretamente aqueles textos? Sem dúvida, pois como já mencionamos em outro trecho, os nomes dos patriarcas foram encontrados também em outros locais. Mas o que se deve pensar do fato de os nomes Sodoma e Gomorra constarem de um arquivo encontrado na Síria, terceiro milênio antes de Cristo? Assim será que essas cidades existiram de fato? Ou será que sua tradição remonta a tempos remotos, a ponto de antecederem o início convencionado para o “tempo dos patriarcas”? Decerto, ainda levará muito tempo para se encontrar respostas a todas essas perguntas. Em geral, o cientista não costuma ir à cata de sensações, e falta muito para reunirmos as condições necessárias para avaliar, sem sombra de dúvida, quanto de realmente sensacional há na arqueologia bíblica do Tell el-Mardikh descontado todo sensacionalismo.
4.7.6. A Cidade de Nínive
“Ora veio a palavra do Senhor a Jonas, filho de Amitai, dizendo: Levanta-te, vai à grande cidade de Nínive, e clama contra ela, porque a sua malícia subiu até mim (Jn 1.1-2)”.
4.7.6.1. O começo das expedições
Em 1854, dirigia-se para o solitário morro vermelho uma caravana de camelos e jumentos com uma carga incomum de pás, picaretas e aparelhos de medição, sob a direção do consul inglês em Baçorá, J. E. Taylor, que não estava ali por espírito de aventura nem, tampouco, por sua própria vontade. Ele fazia essa viagem a serviço do Foreign Office, a fim de satisfazer o desejo do Museu Britânico de Londres de que fosse explorado o sul da Mesopotâmia, a terra onde o Eufrates e o Tigre se avizinham cada vez mais um do outro ao se aproximarem do Golfo Pérsico, em busca de antigos monumentos arquitetônicos. Em Baçorá, Taylor havia ouvido falar muitas vezes do estranho e imenso monte de pedras de que se aproximava nesse momento. Parecia-lhe um objeto adequado para a sua expedição.
Nos meados do século XIX, iniciaram-se pesquisas e escavações por toda parte, no Egito, na Mesopotâmia e na Palestina, obedecendo a um desejo subitamente surgido de formar uma idéia cientificamente alicerçada sobre a história da humanidade naquela parte do mundo. O objetivo de uma vasta série de expedições foi o Oriente Próximo.
Até então, desde o ano 550 a.C. aproximadamente, a Bíblia fora a única fonte de informações sobre a história da Ásia Menor. Só ela falava de tempos que se perdiam nas sombras do passado. Surgiram na Bíblia povos e nomes de que nem os gregos e romanos antigos tinham mais notícia alguma.
Pelos meados do século passado, multidões de eruditos foram atraídas irresistivelmente para as terras do antigo Oriente. Ninguém conhecia os nomes que em breve andariam em todas as bocas. Os homens do “Século das Luzes” ouviam com assombro a respeito de seus achados e descobertas. O que aqueles homens arrancaram, a poder de contínuo e árduo trabalho, das areias do deserto ao longo dos grandes rios da Mesopotâmia e do Egito chamou com justiça a atenção de milhões e milhões de pessoas: ali a ciência abria pela primeira vez a porta do misterioso mundo da Bíblia.
4.7.6.2. As escavações
O consul francês em Mossul, Paul-Émile Botta, é um arqueólogo inspirado. Em 1843, ele inicia escavações em Khursabad, no Tigre, e traz à luz do dia, das ruínas de uma metrópole de quatro mil anos, em todo o seu esplendor, os primeiros testemunhos da Bíblia: Sargão, o lendário soberano da Assíria. No ano em que Tartan, enviado por Sargão, rei dos assírios, foi contra Azot... (Is 20.1).
Dois anos depois, um jovem diplomata e explorador inglês, A. H. Layard, pôs a nu Nimrod (Callach), a cidade que na Bíblia se chama Cale (Gn 10.11) e agora tem o nome do bíblico Nemrod, um poderoso caçador diante do Senhor. O princípio do seu reino foi Babilônia, e Arac, e Acad, e Calane, na terra de Senaar. Daquela terra foi para Assur, e edificou Nínive, e as praças da cidade, e Cale... (Gn 10.10-11).
4.8. Descobertas arqueológicas em Nínive

4.8.1. A descoberta de Nínive
Pouco tempo depois, escavações realizadas a onze quilômetros de Khursabad, sob a direção do major inglês Henry Creswicke Rawlinson, que se tornou um dos assiriólogos mais notáveis, puseram a descoberto a capital assíria de Nínive e a célebre biblioteca do Rei Assurbanipal. E a Nínive da Bíblia, cuja maldade os profetas verberam repetidamente (Jn 1.2).
Na Palestina, o sábio americano Edward Robinson dedica-se, entre 1838 e 1852, a reconstituição da antiga topografia.
O alemão Richard Lepsius, posteriormente diretor do Museu Egípcio de Berlim, registra, numa expedição que se prolonga de 1842 a 1846, os monumentos arquitetônicos do Nilo.
Depois de o francês Champollion ter conseguido decifrar os hieróglifos egípcios, por volta de 1850 é igualmente solucionado o mistério da escrita cuneiforme, entre outros por Rawlinson, o explorador de Nínive. Os velhos documentos começam a falar!

5-OS MANUSCRITOS DO MAR MORTO
5.1. Os Manuscritos do Mar Morto

5.1.1. O que são os Manuscritos?
O termo “Manuscritos do Mar Morto” é usado atualmente em dois sentidos, um genérico e outro específico. No sentido genérico, “Manuscritos do Mar Morto” refere-se a textos, encontrados não no Mar Morto, mas descobertos em grutas ao longo da margem noroeste desse mar entre os anos de 1947 e 1956. Esses “manuscritos” às vezes são completos, mas a grande maioria deles é fragmentos de textos ou de documentos de diversos tipos que datam mais ou menos do final do século III a.C. ao século VII-VIII d.C. Nem todos são relacionados entre si, mas foram encontrados em grutas ou cavidades em sete diferentes locais na margem noroeste do Mar Morto. Nesse sentido genérico, o termo inclui até mesmo alguns textos descobertos no final do século passado num genizah (“esconderijo” usado para abrigar pergaminhos e livros judaicos velhos ou gastos) da Sinagoga de Esdras na parte antiga do Cairo. Os sítios ao longo do Mar Morto compreendem Qumran, Masada, Wadi Murabba'at, Nahal Hever, Nahal Se'elim, Nahal Mishmar e Khirbet Mird. Algumas pessoas as vezes incluem nesse sentido genérico também os textos encontrados em Wadi ed-Daliyeh, um sítio na Transjordânia a nordeste do Mar Morto. É questionável, porém, se devam ser incluídos sob a designação “Manuscritos do Mar Morto”, mesmo no sentido mais amplo, porque não tem nenhuma relação com aqueles e provem de uma área diferente e de um período histórico muito mais recente.
No sentido específico, usa-se “Manuscritos do Mar Morto” para designar os rolos e fragmentos encontrados em 11 grutas na área de Qumran. Usa-se MMM, portanto, para se falar dos manuscritos de Qumran por causa do grande número de textos provenientes dessas grutas e da natureza e importância dos documentos que ali se acharam. Embora 273 cavidades e grutas nas escarpas ao longo do Mar Morto -de Hajar el-'Asbah (= hebraico 'Eben habbohen, ou “a pedra de Bohan”, Js 15.6) a Ras Feshkha, uma faixa de cerca de 8 quilômetros -tenham sido exploradas por arqueólogos (de 10 a 29 de março de 1952), só foram encontrados artefatos que revelam habitação das grutas em 39 delas; destas, 25 tinham artefatos e cerâmicas semelhantes aos encontrados na Gruta 1 e no centro comunitário; mas só 11 grutas nas proximidades de Qumran continham material escrito, e hoje estas são as grutas numeradas, Gruta 1 a Gruta 11. Dessas 11 grutas provem os MMM, que são considerados “a maior descoberta de manuscritos dos tempos modernos” (W. F. Albright).

5.2. Qumran e sua relação com eles
Qumran é o nome árabe moderno usado para o Khirbet Qumran e o Wadi Qumran. O árabe khirbet significa “ruína de pedras” e wâdi, também árabe, “leito de rio seco”; o último é equivalente do hebraico nahal. Perto do Wadi Qumran e mais para o norte, no topo de um platô calcário na base de penhascos que se situam a pouco mais de um quilômetro da margem do Mar Morto, fica o Khirbet Qumran. O platô é limitado ao sul pelo Wadi e a oeste e norte por desfiladeiros. O Khirbet Quman era um sítio conhecido dos exploradores e considerado, desde o final do século XIX, como as ruínas de uma fortaleza romana. Nunca havia sido escavado.
Quando a Gruta 1 foi descoberta em 1947 numa fenda acima dos penhascos, pouco mais de um quilômetro ao norte do Khirbet Qumran, acabou-se suspeitando que o Khirbet Qumran, que fica ao sul, devia ter relações com ela. Assim, ele foi escavado sob o comando de Roland de Vaux, OP, diretor da Escola Bíblica e Arqueológica Francesa (École Biblique et Archéologique Française) de Jerusalém, entre 1951 e 1956. As escavações do Khirbet Qumran revelaram três coisas importantes: (a) vestígios de um aqueduto, que trazia água do Wadi Qumran para o centro comunitário; (b) um centro comunitário na parte ocidental do platô, um complexo com uma torre e vários cômodos usados para fins comunitários e como oficinas e (c) um cemitério, que ocupava a metade oriental do platô e era separado do centro comunitário por uma longa muralha. Relacionadas com o Khirbet Qumran estavam as 25 grutas, que parecem ter sido onde os membros da comunidade viviam. Também relacionadas a ele havia duas áreas agrícolas, uma a cerca de 1,25 quilômetro ao sul do Khirbet Qumran, perto de 'Ain Feshkha (uma fonte de água salobra), e outra acima dos penhascos em Buqei'a. Das grutas numeradas, nas quais se encontrou material escrito, as de número 4 a 10 se situavam perto ou ao longo da orla sul do platô, ao passo que as de número 1 a 3 e 11 eram mais distantes, mais de um quilômetro ao norte do centro comunitário.
Um relatório preliminar das escavações do Khirbet Qumran e da dependência agrícola perto de 'Ain Feshkha foi escrito por de Vaux em L'Archéologie et les Manuscrits de la Mer Morte (The Schweich Lectures of the British Academy 1959; Londres: Oxford University Press, 1961); numa tradução inglesa revista, Archaeology and the Dead Sea Scrolls. Consulte-se também seu capítulo “Archéologie” em M. Baillet, J. T. Milik e R. de Vaux, Le “Petites Grottes” de Qumrân (DJD 3; Oxford: Clarendon Press, 1962) 1-36. Mais informações arqueológicas podem ser encontradas em E.-M. Laperrousaz, Qoumrân.

5.3. Como chegaram até as grutas
Não se sabe com certeza como os manuscritos chegaram as grutas de Qumran. Na Gruta 1 os manuscritos estavam enrolados em tecido e guardados em jarros. Não havia provas de que a gruta fosse habitada. Daí se conclui que servia como local de armazenamento; o mesmo parece valer para a Gruta 3. Nas Grutas 2 e 5 a 11, no entanto, foram encontrados artefatos, indícios de habitação. Por isso os manuscritos descobertos nessas grutas podem ter sido os remanescentes da biblioteca particular das pessoas que viveram ali. Quanto a Gruta 4, na extremidade sul do platô, da qual não veio nenhum manuscrito completo, “pelo menos 15.000 fragmentos” (segundo o relatório oficial) foram coletados dos escombros que se acumularam ali em mais de um metro de altura durante os séculos. Nesse caso, os manuscritos não tinham sido envolvidos em tecido nem guardados em jarros, e tinha-se a impressão de um lugar onde os membros da seita simplesmente descarregaram os manuscritos de sua biblioteca comunitária na época (68 d.C.) em que o centro estava prestes a ser destruído pelos romanos a caminho do assédio a Jerusalém. Parece que foram jogados ali as pressas, talvez na esperança de que mais cedo ou mais tarde fossem encontrados intactos por membros que algum dia retornassem. Ali ficaram até 1952.

5.3.1. A descoberta
Diz-se que os manuscritos da hoje chamada Gruta 1 foram descobertos por um menino, pastor beduíno, que conduzia seu rebanho de ovelhas e cabras para dar-lhes de beber na fonte 'Ain Feshkha. Chamava-se Muhammad edh-Dhib (Muhammad, o Lobo), membro da tribo beduína dos Ta'amireh. Os pormenores da descoberta ficam no campo dos boatos, mas parece que quando um dos animais se perdeu, o menino saiu a sua procura e, vendo uma abertura no penhasco a pouco mais de um quilômetro ao norte do Khirbet Qumran, lançou uma pedra contra ela. Ouvindo-a produzir um som estranho, decidiu investigar. No dia seguinte, voltou com um companheiro, escalou a parede e entrou na gruta, onde descobriu grandes jarros de terracota com tampa, nos quais estavam armazenados rolos de manuscritos envoltos em tecido. Posteriormente, se revelou que 7 grandes manuscritos foram encontrados nessa gruta. Em seguida, arqueólogos visitaram a gruta e encontraram cerca de 70 textos fragmentários, alguns dos quais relacionados com os 7 manuscritos maiores; asseguraram dessa forma que os 7 rolos vieram de fato daquela gruta.
Os beduínos Ta'amireh estavam agora alertas para a possibilidade de descobrir outros documentos em grutas. Membros dessa tribo beduína descobriram a Gruta 2 em 1952. Arqueólogos do Museu Arqueológico da Palestina, da Escola Bíblica e da Escola Americana de Pesquisa Oriental, que exploraram os penhascos, descobriram a Gruta 3. Os beduínos, novamente, descobriram a Gruta 4, tendo sido levados a ela em virtude da história contada por um ancião beduíno, que vira uma perdiz ferida voar para dentro de uma fenda na extremidade sul do platô calcário em que se situava o Khirbet Qumran. Abriram a fenda, descobriram a gruta e começaram a limpá-la até ser detidos pelo Departamento de Antiguidades da Jordânia. Foi finalmente escavada por uma equipe conjunta do Departamento, da Escola Bíblica e do Museu Arqueológico da Palestina. Esses arqueólogos também descobriram a Gruta 5, próxima dali, e em particular J. T. Milik recuperou os fragmentos, que publicou em seguida. A pequena Gruta 6 foi encontrada por beduínos, tal como a Gruta 11. No caso desta, os beduínos viram um morcego voar para dentro de uma fenda nos penhascos mais para o sul da Gruta 3, que eles então abriram, procedendo a sua completa limpeza, apoderando-se de vários textos valiosos da gruta repleta de guano. Os arqueólogos, todavia, conseguiram mais tarde recuperar alguns fragmentos da Gruta 11, que de novo serviram para certificar que os textos posteriormente comprados dos beduínos provinham de fato daquela gruta. As Grutas 7 a 10 foram descobertas pelos arqueólogos durante a escavação do Khirbet Qumran.
A esse respeito é importante observar que fragmentos de fato foram encontrados pelos arqueólogos, já que isso às vezes tem sido negado ou ao menos posto em dúvida. Assim, E. R. Lacheman escreveu em 1954: “Permanece ainda o fato de que nem um único documento foi encontrado por um arqueólogo” (JQR 44 [1953-54] 290). Isso foi dito numa época em que as declarações dos descobridores beduínos não haviam merecido confiança. A respeito dos textos da Gruta 1, S. Zeitlin escreveu certa vez: “Foram de fato descobertos por beduínos, ou foram depositados na gruta para ser descobertos mais tarde, e assim a descoberta toda é um embuste?” (JQR 47 [1956-57] 267).

5.3.2. Data das descobertas
Os sete grandes manuscritos da Gruta 1 foram descobertos no início de 1947, antes da guerra árabe-israelense de 1948-1949. Só depois da guerra, em 1949, a gruta foi identificada pelo capitão Philippe Lippens – membro belga da Organização das Nações Unidas para Supervisão do Armistício -e por um oficial britânico da Legião Árabe Jordâniana, sendo visitada e escavada em seguida por arqueólogos do Departamento de Antiguidades da Jordânia, da Escola Bíblica e do Museu Arqueológico da Palestina. Durante essa escavação, 72 fragmentos foram recuperados. A Gruta 2 foi descoberta por beduínos em fevereiro de 1952. Durante a exploração dos penhascos pela equipe conjunta dos arqueólogos, em março de 1952, a Gruta 3 foi descoberta. As Grutas 4 e 6 foram descobertas pelos beduínos em setembro de 1952. As Grutas 5 e 7-10 foram encontradas pelos escavadores do Khirbet Qumran em fevereiro e março de 1955. A Gruta 11, que passava despercebida a equipe de exploração arqueológica de 1952, foi encontrada por beduínos em 1956.
5.3.3. País que foram achados
Os manuscritos da Gruta 1 de Qumran, descoberta em 1947, foram encontrados no território do Mandato Britânico da Palestina, que incluía toda a área desde a margem ocidental do Mar Morto até o Mediterrâneo. Nessa época, o Estado de Israel não existia. Passou a existir em 14 de maio de 1948, quando Israel declarou sua independência. A primeira guerra árabe­israelense irrompeu imediatamente depois (15 de maio) e durou até o cessar­ fogo e armistício de 7 de janeiro de 1949. A área em que o restante dos MQ, isto é, as Grutas 2-11, seria posteriormente descoberto tornou-se parte da assim chamada Cisjordânia, que depois do armistício foi ocupada pela Jordânia, e em 1950 o Reino Hashemita da Jordânia declarou sua soberania sobre a Cisjordânia e a Faixa de Gaza, o que durou até a guerra dos Seis Dias de 1967, quando Israel ocupou aquele território. Os direitos da Jordânia sobre a Cisjordânia só foram oficialmente reconhecidos pela Grã-Bretanha e pelo Paquistão.
Os textos recuperados das grutas do Wadi Murabba'at e do Khirbet Mird em 1952 também foram encontrados no território da Cisjordânia controlado pela Jordânia. No entanto, os textos que os beduínos encontraram em outros sítios (Nahal Hever, Nahal Mishmar e Nahal Se'elim) de fato vieram do outro lado da fronteira, da parte do deserto da Judéia que veio a pertencer ao Estado de Israel.
5.3.4. Onde se encontram
Os sete grandes manuscritos da Gruta 1 estão guardados hoje no Santuário do Livro, parte do Museu Israel, em Jerusalém, Israel. A Placa de Cobre da Gruta 3 e alguns fragmentos da Gruta 1, publicados em DJD 1, estão no Museu do Departamento de Antiguidades, Amã, Jordânia. Alguns dos textos fragmentários da Gruta 1 estão no Museu Arqueológico da Palestina de Jerusalém oriental, agora chamado Museu Rockefeller, e os que ficaram em posse da Escola Bíblica foram adquiridos pela Biblioteca Nacional de Paris. Os milhares de fragmentos da Gruta 4 ainda estão no scrollery, nome dado ao acervo de documentos do Museu Arqueológico da Palestina, onde também se encontram os textos da Gruta 11.
5.3.5. Os atuais donos
Os sete grandes manuscritos da Gruta 1 são propriedade do Estado de Israel. Excluídos esses manuscritos, é difícil dizer a quem pertence o restante. De acordo com uma “lista de distribuição” em DJD 1, alguns dos 72 fragmentos da Gruta 1 foram enviados para o Departamento de Antiguidades da Jordânia em Amã, alguns para o Museu Arqueológico da Palestina em Jerusalém oriental, e alguns para a Escola Bíblica. Uma nota de rodapé diz que todos os fragmentos desta última instituição foram posteriormente adquiridos pela Biblioteca Nacional de Paris.
Dado que o material das Grutas 2-11 foi encontrado na Cisjordânia entre 1952-1956, a Jordânia reivindicou-o para si. Em maio de 1961, o governo nacionalizou os fragmentos de Jerusalém oriental e proibiu sua exibição em qualquer outro país exceto na Jordânia (New York Times, 2 de maio de 1961, p. 5; London Times, 3 de maio de 1961, p. 10; cf. DJD 6. 4).
O assunto, porém, é complicado. Quando os milhares de fragmentos da Gruta 4 foram trazidos para o acervo do Museu Arqueológico da Palestina, muitos deles tiveram de ser comprados dos beduínos, que primeiramente haviam descoberto a gruta e começado a limpá-la. Foi feito assim um esforço por parte do Departamento de Antiguidades da Jordânia para comprar todos os fragmentos dos beduínos porque se constatou que só assim seria possível trabalhar no gigantesco quebra-cabeças que tais fragmentos criariam. Por essa razão, os fragmentos tiveram de ser mantidos em Jerusalém. Do contrário, os beduínos poderiam tê-los vendido a forasteiros como tesouros arqueológicos, e os fragmentos teriam se dispersado, sem nenhuma esperança de um dia reuní-los para reconstituir os textos. No entanto, nem o Museu nem o Departamento de Antiguidades tinham fundos suficientes para tal aquisição. O diretor britânico do Departamento, G. Lankester Harding, com a aprovação do governo jordaniano, apelou ao auxílio de instituições estrangeiras. Mais tarde, quando a Jordânia resolveu nacionalizar os MQ, eles se tornaram propriedade desse país, cujo governo devia reembolsar as instituições estrangeiras (DJD 6. 5). Não se sabe se tal reembolso foi efetuado alguma vez.
Na época da Guerra dos Seis Dias (1967), o Museu Arqueológico da Palestina, que fora nacionalizado pela Jordânia em 1966, passou a jurisdição de Israel, que ocupou Jerusalém oriental e a Cisjordânia. Mas era “jurisdição” por ocupação, uma autoridade contestada, e por isso a resposta a pergunta está envolvida na situação política do Oriente Médio. Assim, é difícil dizer a quem realmente pertencem os MQ que ainda estavam no Museu em 1967. Também há questões complicadas ligadas a publicação dos MQ.
5.4. Israel adquire os principais manuscritos da gruta
Quando descobriu a Gruta 1 no início de 1947, Muhammad edh-Dhib acabou levando os sete manuscritos a um sapateiro sírio de Belém, Khalil Iskander Shahin (popularmente conhecido como Kando), que também vendia antiguidades. Em companhia de outro cristão sírio, George Isaiah, Kando levou quatro dos manuscritos a seu Metropolita (Arcebispo), Mar Athanasius Yeshue Samuel, abade do Mosteiro de São Marcos em Jerusalém e chefe dos cristãos jacobitas sírios locais. O Metropolita comprou os quatro pergaminhos de Kando (ao que parece, por 24 libras). Assim, o manuscrito Isaías A, o Manual de Disciplina, o Pesher sobre Habacuc e o Apócrifo do Gênesis passaram a pertencer ao Metropolita. Os outros três manuscritos, Isaías B, o Manuscrito da Guerra e os Salmos de Ação de Graças, acabaram sendo vendidos ao Profº. Eleazar Lipa Sukenik, da Universidade Hebraica de Jerusalém Ocidental. Pouco antes da primeira guerra árabe-israelense, em fevereiro de 1948, o Metropolita levou seus quatro manuscritos para o que então se chamava Escola Americana de Pesquisa Oriental (hoje o Instituto W. F. Albright de Pesquisa Arqueológica) em Jerusalém oriental, onde três deles foram fotografados por John C. Trevor. O quarto, o Apócrifo do Gênesis, não pode ser aberto por estar grudado. Quando irrompeu a guerra árabe-israelense, o Metropolita levou os quatro manuscritos para Homs, na Síria, e em seguida para Beirute. Em janeiro de 1949, levou-os para os Estados Unidos, onde ficaram depositados na caixa-forte de um banco de Nova York por vários anos. O Apócrifo do Gênesis ainda não havia sido aberto.
Em 1º de junho de 1954, publicou-se um anúncio no Wall Street Journal (p. 14): “Os quatro “Manuscritos Bíblicos do Mar Morto”, que remontam pelo menos a 200 a.C., estão a venda. Seria uma doação ideal para um indivíduo ou grupo fazer a uma instituição educacional ou religiosa. Box F 206”. Yigael Yadin, filho do Profº. Sukenik, ex-oficial do exército israelense durante a guerra árabe-israelense e posteriormente vice-primeiro-ministro de Israel, estava nos Estados Unidos naquele momento e tomou conhecimento do anúncio. Usando um banqueiro nova-iorquino como intermediário, ele comprou os quatro manuscritos do Metropolita por 250 mil dólares em 1º de julho de 1954. Em 2 de julho, os manuscritos foram levados ao consulado de Israel em Nova York e finalmente enviados, um a um, para Jerusalém. Assim os quatro manuscritos se tornaram propriedade do Estado de Israel e se juntaram aos três que Sukenik adquirira anteriormente de Kando. Todos os sete estão hoje no Santuário do Livro, parte do Museu Israel em Jerusalém. O Apócrifo do Gênesis foi então aberto, e parte dele foi publicada por estudiosos israelenses em 1956.
5.4.1. Os manuscritos que foram publicados
Todos os sete grandes manuscritos da Gruta 1 foram publicados por estudiosos norte-americanos ou israelenses. Os 72 textos fragmentários também foram publicados por eruditos franceses ou poloneses em DJD 1 (volume 1 da série, “Discoveries in the Judaean Desert”). Um texto da Gruta 1, o Apócrifo do Gênesis, foi recentemente submetido a novas técnicas fotográficas, e algumas colunas mal preservadas do texto tiveram agora melhor leitura; essas colunas serão publicadas em breve por eruditos israelenses. O número total de textos da Gruta 1 é 79.
Todos os textos das Grutas 2-3, 5-10 também foram definitivamente publicados em DJD 3. Da Gruta 2, há 33 textos fragmentários, e da Gruta 3, 15 textos. Na Gruta 5, 25 textos fragmentários foram encontrados; na Gruta 6, 31 textos; na Gruta 7, 19 fragmentos; na Gruta 8, 5 textos fragmentários; da Gruta 9, 1 fragmento de papiro; e da Gruta 10, um óstraco com duas letras hebraicas nele. No total, foram publicados 130 textos fragmentários dessas grutas menores.
A maioria dos textos da Gruta 11 foram publicados por eruditos norte­americanos, holandeses ou israelitas em publicações independentes. Ao todo, eles aparentemente perfazem cerca de 25 textos; uns poucos fragmentos menores ainda aguardam publicação, que se promete iminente.
O problema tem sido o atraso escandaloso na publicação de tantos textos fragmentários da Gruta 4. Os textos 128-186 e 482-520 foram definitivamente publicados em DJD 5, 6, 7, isto é, apenas 98 textos. Em acréscimo a esses 98 definitivamente publicados, cerca de 20 outros textos (bíblicos e não­bíblicos) foram publicados em forma preliminar por estudantes de pós­graduação da Universidade de Harvard. Alguns dos editores, a quem os textos foram confiados, publicaram vez por outra partes de outros textos diferentes. Esses textos fragmentários variam em tamanho, de um fragmento a diversos fragmentos reunidos, ou a vários identificados como pertencendo ao mesmo texto.
Segundo o último relatório (1991), o trabalho sobre o quebra-cabeças já produziu 584 textos fragmentários da Gruta 4. Isso significa que cerca de 80% dos textos fragmentários da Gruta 4 ainda aguardam publicação.
De todas as 11 grutas, dos 818 textos de Qumran conhecidos, cerca de 350 deles foram definitivamente publicados, ou seja, cerca de 40%.
5.4.2. Os idiomas que foram escritos
A grande maioria dos textos de Qumran está escrita em hebraico, mas um número importante deles foi preservado em aramaico, uma língua da família do hebraico. Era a língua usada pela maioria dos judeus da Palestina nos dois últimos séculos a.C. e nos primeiros séculos d.C. Há também alguns textos em grego, isto é, textos do Antigo Testamento grego, encontrados nas Grutas 4 e 7.
Os textos hebraicos não são apenas bíblicos, ou seja, manuscritos e fragmentos da Escritura hebraica, mas também vários escritos não-bíblicos: textos de literatura parabíblica conhecidos anteriormente apenas em traduções gregas, etíopes ou latinas; e textos de escritos sectários que vieram a luz pela primeira vez.
De igual modo, há textos bíblicos em aramaico, Daniel e Tobit, e também três targumim fragmentários (traduções aramaicas de passagens do Levítico e de Jó). Além disso, muitos escritos aramaicos até então desconhecidos, entre os quais os mais importantes são o Apócrifo do Gênesis da Gruta 1 e os fragmentos de Enoc da Gruta 4.
5.4.3. As datações
Embora tenham sido usados dados arqueológicos como cerâmica e moedas encontradas às vezes nas grutas junto com os fragmentos, a datação se faz principalmente por paleografia, isto é, pelo estudo comparativo de formas antigas de escrita.
Especialistas como W. F. Albright, N. Avigad, S. A. Birnbaum, F. M. Cross, R. S. Hanson e J. T. Milik fizeram a maior parte desse trabalho paleográfico. Inicialmente, os textos, a medida que vinham a luz, eram comparados com outros textos antigos conhecidos, como o papiro Nash do último período macabeu (ver S. A. Cook, “A Pre-Massoretic Biblical Papyrus”) e antigas inscrições do período romano. Logo esses estudiosos conseguiram classificar a escrita dos MQ em quatro categorias paleográficas principais (embora a terminologia possa diferir de um autor para outro):

(a) Arcaica: de cerca de 250 a.C. (ou final do século III) a 150 d.C.

(b) Hasmoneana: 150-30 a.C.

(c) Herodiana: 30 a.C. -70 d.C.

(d) Pós-herodiana ou ornamental: 70-135 d.C.

Dentro dessas categorias, os estudiosos às vezes distinguem ainda a escrita formal da cursiva. Após vários anos de estudo, esse método paleográfico foi considerado muito acurado, com uma margem de 50 anos.
Além da paleografia, usou-se também a datação radiocarbônica. O carbono 14, um isótopo radiativo do carbono, divide-se num ritmo mensurável com exatidão, independentemente de seu meio ambiente. Raios cósmicos do espaço sideral, bombardeando a terra com aparente constância, transformam o nitrogênio na atmosfera terrestre em carbono 14. Quando reage com o oxigênio no ar, cria dióxido de carbono. As plantas retiram a maior parte de seu carbono do dióxido de carbono no ar e na água. Os animais alimentam­se de plantas, e assim todas as criaturas vivas acabam com carbono 14 em seu organismo. Quando um ser vivo destes morre, morre com certa quantidade de carbono e carbono 14. Este continua a irradiar, mas nenhum carbono 14 adicional é absorvido. De fato, o carbono 14 residual começa a se dividir e a voltar a ser nitrogênio. A divisão se dá num ritmo constante, e sua “meia-vida” é mensurável, isto é, o tempo durante o qual metade da energia radiante se degenerará. Essa meia-vida a princípio foi calculada em 5.568 anos. A fim de testar material orgânico antigo, é necessário queimar um pouco dele. No início, os estudiosos ficaram relutantes quanto a submeter documentos tão valiosos aquele teste. Além disso, devido a margem de erro (± 200 anos, ou até ± 80 anos), os paleógrafos acharam que podiam conseguir datações melhores do que esses resultados.
Em 1951, W. F. Libby, cientista do Instituto de Estudos Nucleares da Universidade de Chicago, testou alguns dos invólucros de tecido usados para proteger os manuscritos nos jarros encontrados na Gruta 1. A datação radiocarbônica resultante foi 1917 ± 200 anos, ou 33 d.C., ± 200 anos, isto é, entre 233 d.C. e 168 a.C.. Em 1956, um pouco da madeira de palmeiras do Khirbet Qumran foi igualmente testado no laboratório da Instituição Real de Londres, descobrindo-se que tinha 1940 ± 80 anos, chegando-se assim, a uma data de 16 d.C., ± 80 anos.
Em 1961, foi anunciado no National Bureau of Standards, Washington, DC, que a técnica de datação do radiocarbono tinha sido aprimorada, tornando necessário usar apenas uma porção íntima do material e corrigir a meia-vida de 5.568 para 5.730, ± 40 anos. Isso resultou numa correção da data do tecido para 20 d.C. Ver R. Stuckenrath, “On the Care and Feeding of Radiocarbon Dates”, Archaeology 18 (1965); H. Godwin, “Half-life of Radiocarbon”, Nature 195 (4845, 8 de setembro de 1962); E. M. Laperrousaz e G. Odent, “La Datation d'Objets Provenant de Qoumran, en Particulier para la Méthode Utilisant les Propriétés du Carbone 14”, Semitica 27 (1977) 83-98.
Recentemente, vários fragmentos e manuscritos foram novamente testados pela datação radiocarbônica, dessa vez com um método aprimorado, chamado acelerador de massas espectroscópico. Relatórios desses testes foram publicados em artigos por G. Bonani et al., “Radiocarbon Dating of the Dead Sea Scrolls”, Atiqot 20 (julho, 1991) 27-32; e “Radiocarbon Dating of Fourteen Dead Sea Scrolls”, Radiocarbon (no prelo, 1992). Esse teste foi feito em Zurique, Suíça, no Institut für Mittelenergiephysik, e catorze amostras foram usadas. Destas, uma vinha do Wadi ed-Daliyeh, oito de Qumran, duas de Masada, e uma do Wadi Se'elim, Wadi Murabba'at e Khirbet Mird. As de Daliyeh, Se'elim, Murabba'at e Mird geraram datas internas absolutas. Nem essas datas absolutas nem a datação paleográfica das outras dez tinham sido reveladas aos cientistas de Zurique, de modo que eles trabalharam independentemente. Em geral, as datações de carbono 14 confirmam as paleográficas. Para os documentos com datas internas, a datação do carbono 14 coincidiu em três dos quatro casos, e no quarto houve uma diferença de apenas dez anos. Em oito das outras dez datadas paleograficamente, a datação radiocarbônica confirmou as datas paleográficas; em um caso houve uma diferença de 50 anos (o limite da margem de erro estabelecido pelos paleógrafos), e em outro a datação radiocarbônica foi registrada com cerca de 200 anos a mais do que a data hasmoneana dada pelos paleógrafos (300 a.C. em vez de 100 a.C.).
Alguns dos fragmentos de Qumran foram datados conforme a medição da temperatura de contração das fibras da pele ou do couro. As peles dos animais contêm um componente fibroso chamado colágeno que se degenera. As mudanças degenerativas refletem-se na redução da temperatura de contração da pele. Fragmentos de pergaminho, submetidos a calor progressivo, começam a se contrair, e quanto mais velho o pergaminho, mais baixa a temperatura em que isso ocorre. Esse método de medição foi desenvolvido no Departamento de Couro da Universidade de Leeds, Inglaterra. Um grupo de fragmentos, alguns de Qumran, e outros com datas conhecidas, foram medidos por esse método e apresentaram uma cronologia relativa. Os cientistas aplicaram o método a:

(a) pergaminhos ingleses de 1193 a 1955 d.C.;

(b) peles de Murabba'at (de 132-135 d.C.);

(c) fragmentos da Gruta 4 de Qumran;

(d) fragmentos de cartas egípcias em aramaico escritas sobre pele (do século V a.C.); e
(e) um cabo de machado de couro cru do Egito (de 1300 a.C.).

O resultado do teste foi que os fragmentos da Gruta 4 de Qumran estavam mais intimamente relacionados aos de (b), (d) e (e) do que a (a), sendo ligeiramente mais velhos que os de (b). Em outras palavras, os fragmentos de Qumran não eram tão velhos quanto as cartas egípcias em aramaico, mas mais velhos que as peles de Murabba'at (ver D. Burton, J. B. Poole e R. Reed, “A New Approach to the Dating of the Dead Sea Scrolls”, Nature 184 [4685, 15 de agosto de 1959] 533-534).
Finalmente, há algumas indicações em certos manuscritos que podem ser usadas como data interna. Por exemplo, faz-se referência a um personagem histórico, que é com quase certeza Demétrio III Eucero, um dos governadores selêucidas no século II a.C. Há também um fragmento calendárico, ainda não publicado, que menciona Šelãmsiyôn, nome hebraico da rainha Alexandra, sucessora de Alexandre Janeu Hircano, e os massacres de 'Emilyôs, Emílio Escauro, o primeiro governador romano da Síria (63 a.C.). Essas referências internas ajudam a localizar de modo geral a existência da comunidade de Qumran e sua literatura nos dois últimos séculos antes de Cristo. Em seguida, ajudam a excluir a identificação da comunidade de Qumran com um movimento cristão e a fixar suas raízes no judaísmo dos últimos séculos antes de Cristo.
5.4.4. Duas cópias de Isaías descobertas na gruta

Os sete grandes manuscritos da Gruta 1 são os seguintes: (a) Cópia “a” do livro de Isaías: Este texto, datado paleograficamente em 125-100 a.C. e agora pelo radiocarbono em 202-107 a.C., contém todos os 66 capítulos do livro de Isaías, exceto por algumas palavras cortadas na base de algumas colunas. Está escrito em 54 colunas de largura variada, sobre 17 peças de pele de carneiro costuradas para formar um rolo, medindo aproximadamente 7,5m de comprimento e 0,30m de altura. Esse manuscrito dá um testemunho singular da fidelidade com que o livro de Isaías foi copiado ao longo dos séculos pelos escribas judeus, já que o mais antigo texto hebraico de Isaías que se conhecia antes da descoberta dos MQ era o códice do Cairo dos Profetas maiores e menores datado em 895 d.C. (em seu cólofon). Embora haja diferenças de soletração, que eram de esperar, o que há de notável sobre o texto é que apenas 13 leituras variantes que ele continha foram consideradas suficientemente importantes para serem usadas na edição de 1952 da Revised Standard Version (versão padronizada e revisada da Bíblia). Além disso, esse manuscrito não apresenta nenhuma consciência da distinção de Primeiro, Segundo e Terceiro Isaías, de vez que os capítulos 39-40 são copiados na mesma peça de pele, e o mesmo vale para os cap. 55-56. Ver M. Burrows, The Dead Sea Scrolls (Nova York: Viking, 1955). Excetuando-se essas 13 leituras variantes, o texto da cópia “a” de Isaías é textualmente insignificante. Juntamente com a cópia “b” de Isaías e com pelo menos 15 outros textos fragmentários de Isaías provenientes de Qumran, ele revela que o texto de Isaías estava relativamente estabilizado já no século II a.C.
(b)       Cópia “b” do livro de Isaías: Este texto de Isaías, datado paleograficamente no final do século I a.C. ou na primeira parte do século I d.C., é fragmentário. Contém partes dos caps. 7-8, 10, 12, 13, 15, 16, 19, 20, 22, 23, 24, 25, 29, 30, 35, 37-41, 43-51, estando bastante preservado do cap. 41 em diante. É considerado normalmente mais próximo da tradição masorética do que a cópia “a” de Isaías, isto é, mais próximo da tradição textual hebraica medieval do AT. Suas diferenças de soletração são menos notáveis que as da cópia “a” de Isaías.


Ao concluirmos este tratado estamos cientes de que não esgotamos o assunto, mesmo porque, muitas outras novidades no campo arqueológico já foram descobertas, mas ainda não notificadas pela ciência. Uma coisa podemos afirmar, que quanto mais a ciência busca desaprovar os escritos sagradas, mas ela se compromete com a Bíblia, como vimos atrás, a ciência negou por muitos anos o dilúvio, e ela própria acabou provando sua existência.
Esperamos que o leitor interessado em conhecer os fatos bíblicos não fique somente com este simples tratado arqueológico, mas vá as fontes e pesquise para conhecer a riqueza da qual a Bíblia trata – e, sobretudo, para ter argumentos bíblicos e teológicos para fechar a boca dos descrentes.

Um comentário:

Hugo Hoffmann disse...

Maravilhoso todo este material. Mas irmão, qual é a fonte do mesmo? Gostaria de saber...